Fugitivos do amor

Barbara Cartland



Coleo Barbara Cartland n 55

Publicado originalmente em: 1978
Ttulo original: A fugitive from love
Copyright para a lngua portuguesa: 1982
ABRIL S.A. CULTURAL E INDUSTRIAL


Digitalizao: Palas Atenia
Reviso: Ftima Toms


Vendida pelo prprio pai em pagamento de dvidas de jogo, enganada e surrada barbaramente pelo marido sdico, procurada pela polcia de Monte Carlo.  Salena s via 
uma sada para sua situao desesperada:  a morte.  Correu para o mar, a fina camisola branca brilhando ao luar.

A bordo de seu iate, o duque de Templecombe olhava as luzes da cidade se afastarem e tambm tinha pensamentos sombrios.  Estava deixando ali a mulher que amava e 
que o havia trado.  Navegava rumo a Tnger, decidido a esquec-la e a nunca mais entregar seu corao.  Ento, alguma coisa branca, boiando no oceano, chamou sua 
ateno ...

CAPTULO I


 1903

        O trem parou na estao de Monte Carlo. Salena desceu para a plataforma e olhou em volta, com olhos bem abertos.
        A estao parecia muito comum, nada extica ou ameaadora, como foi levada a crer.
        Quando a irm superiora soube que Salena devia se reunir ao pai em Monte Carlo, ficou francamente escandalizada. Mostrou a tal ponto a desaprovao, que 
a moa ficara admirada; em geral, a superiora era tolerante e de idias largas.
        A escola, anexa a um convento, para onde tinha sido mandada dois anos antes, no era exclusivamente catlica. Aceitava moas de todas as religies, mas Salena 
sabia que foi devido  influncia da madrasta do pai, que conseguiu estudar l.
        - O Colgio de St. Marie  muito seleto e s aceita um nmero limitado de alunas - disse a velha lady Cardenham. - Mas creio que a educao  do mais alto 
nvel e, mais importante ainda, voc aprender a falar vrias lnguas. Se h uma coisa essencial para uma moa, hoje,  falar fluentemente o francs e, se possvel, 
o italiano e o alemo.
        Salena tinha a impresso de que a av havia escolhido um convento para ela porque desaprovava o comportamento do pai de Salena aps a morte da esposa.
        No era segredo que a velha lady Cardenham no se dava bem com o enteado e que foi apenas por uma noo de dever, mais do que por afeio, que assumiu a 
responsabilidade da educao de Salena.
        -  a nica coisa pela qual ela vai pagar - disse o pai da moa, com amargura. 
        - Ento, no faa economia quando chegar a hora de comprar livros caros ou de ter aulas extras, se  que h essas coisas, l.
        Houve muitas aulas extras, e Salena ficou constrangida ao saber que, no fim do perodo escolar, a av ia receber uma conta enorme.
        A velha lady Cardenham podia perfeitamente arcar com as despesas, pois era muito rica; foi, portanto, uma infelicidade ter morrido seis meses antes de Salena 
debutar.
        As outras meninas da escola falavam constantemente do que iam fazer quando crescessem, dos bailes e das reunies sociais das quais participariam.
        Assim sendo, Salena esperava com ansiedade o dia em que faria sua reverncia no Palcio de Buckingham e seria uma das debutantes naquilo que descrevia como 
um "brilhante cenrio londrino".
        Foi uma sorte a av ter pago a escola um ano adiantado, mas Salena ficava imaginando, apreensiva, o que fazer quando as aulas terminassem, pois nenhuma providncia 
havia sido tomada para suas frias.
        Depois da morte da me, nunca mais voltou a seu lar, na Inglaterra. Em vez disso, a irm superiora sempre providenciava para que, em companhia de outras 
meninas cujos pais estavam no exterior, Salena fosse com duas freiras para uma fazenda, no campo, onde passavam algumas semanas num ambiente calmo, embora primitivo.
        Salena adorava cada momento, mas no ltimo ano achou um pouco frustrante ter to pouca coisa para contar s amigas, ao voltar para a escola.
        Apesar de tudo, tinha sido feliz. A notcia da morte da av foi uma bomba e o susto, maior, quando recebeu uma carta do pai, dizendo que ela no devia ir 
encontr-lo em Londres, mas em Monte Carlo.
        Monte Carlo!
        S o nome j era sinnimo de m fama e de iniqidade, apesar de os jornais noticiarem que todas as cabeas coroadas da Europa l se reuniam numa ou noutra 
ocasio, inclusive o rei George e sua linda esposa dinamarquesa, a rainha Alexandra!
        Mas as freiras consideravam Monte Carlo como o lugar mais prximo do inferno na terra, e Salena quase esperou ver os carregadores parecerem diabos e o trem 
se transformar num drago a expelir fogo.
        Em vez disso, enquanto olhava em volta, surgiu um lacaio de libr correndo para ela.
        - M'mselle Cardenham?
        - Oui, je suis mademoiselle Cardenham.
        - Monsieur a espera na carruagem, m'mselle.
        Salena virou-se e saiu da estao, enquanto o lacaio ia apanhar sua bagagem.
        L fora, numa vitria aberta, reclinado no banco e fumando um charuto, estava seu pai.
        - Papai!
        Correu para ele, subindo para a carruagem e sentou a seu lado, erguendo o rosto.
        Percebeu que o pai a examinava, antes de beij-la. Depois, com sua habitual maneira jovial e bem-humorada, ele disse:
        - Como vai, minha boneca? Pensei que voc tivesse crescido, mas ainda  a mesma baixinha.
        - Na realidade, cresci dez centmetros, desde a ltima vez que me viu.
        Lorde Cardenham jogou fora o charuto, colocou as mos nos ombros da filha e afastou-a um pouco.
        - Deixe-me olhar para voc. Sim... eu tinha razo!
        - Razo sobre o qu?
- Apostei comigo mesmo que voc ia ser uma beleza. 
Salena corou.
        - Eu tinha esperana, papai... de que me achasse... bonita.
        - Voc  mais do que bonita. Para dizer a verdade,  linda. Tanto quanto sua me foi, mas de um modo diferente.
        - Eu adoraria ser parecida com mame.
        - Gosto de pensar que voc tem alguma coisa de mim - disse ele, animado. - Onde est a bagagem?
        A pergunta foi endereada ao lacaio que esperava Salena na plataforma e estava agora ao lado da carruagem.
        - Um carregador vai traz-la, monsieur.
        - H muita coisa?
        - No, monsieur.
        - Ento, a bagagem pode vir aqui conosco.
        - Sim, monsieur. O carregador apareceu trazendo a mala de Salena sem dificuldade, assim como uma valise que continha pouca coisa alm de livros.
        -  s isso que voc tem?
        - Infelizmente tenho muito pouca roupa, papai. Os vestidos que eu usava antes do luto de vov ficaram pequenos, e no adiantava comprar outros que sabia 
que no iam servir, depois que eu sasse da escola.
        - No. Claro que no.
        O pai tirou do bolso uma bela cigarreira com cantos de ouro e abriu-a lentamente, de um jeito que fez Salena acreditar que ele estava pensando mais no que 
ia dizer do que concentrado em escolher um charuto.
        A bagagem foi colocada na parte de trs da vitria. O lacaio sentou ao lado do cocheiro e a carruagem partiu.
        - Creio que tem alguma coisa para me dizer, papai.
        - Tenho muita coisa para lhe dizer, minha querida. Mas, primeiro, deixe-me contar onde ficaremos hospedados.
        - Vamos ficar com amigos? - perguntou a moa, com uma nota de decepo na voz. - Eu esperava poder ficar sozinha com voc.
        - Eu tambm, mas, para falar a verdade, tenho que contar com a generosidade dos amigos.
        - Quer dizer que est em m situao financeira?
        - No s em m situao, Salena. Falido! No possuo um nquel!
- Oh, no! 
        Foi mais tristeza do que surpresa porque Salena sabia, havia muito tempo, como o pai era descuidado com dinheiro. Sua me e ela prpria tinham tido que se 
esforar e economizar para eles se agentarem.
        - Suponho que vov no lhe deixou nada, no testamento? - perguntou, com uma leve esperana.
        - Deixar alguma coisa para mim? Era mais fcil ela deixar para o diabo! Mas o que me surpreendeu foi no ter deixado nada para voc.
        Salena no disse nada, e ele continuou:
        - Sei qual o motivo. Ela me detestava e achou que, se voc tivesse dinheiro, eu o gastaria. Foi a mesma coisa... maldio!... que o pai de sua me fez, querida. 
- Tragou o charuto, com raiva. - Isso quer dizer, minha boneca, que estamos na misria! Temos que pensar no que vamos fazer, e pensar depressa.
        Salena fez um gesto de desamparo.
        - Que  que podemos fazer, papai?
        - Estive pensando em muitas coisas - disse lorde Cardenham, evasivo. - Mas falaremos sobre isso mais tarde. Nesse meio tempo, procure ser agradvel com o 
nosso anfitrio.
        - Ainda no me disse quem  ele, papai.
        -  o prncipe Serge Petrovsky.
        - Um russo!
        - Sim, um russo e danado de rico! Monte Carlo est cheio deles, todos ricos como Creso e, folgo em dizer, generosos com seu dinheiro.
        - Mas o prncipe  seu amigo, papai. Espero que no se importe de me incluir na lista de seus convidados.
        - Expliquei-lhe francamente que no tinha para onde lev-la, minha filha, e imediatamente ele disse que voc devia ir para a vila. Era o que eu esperava, 
mas ns dois precisamos de muito mais, por parte dele, do que isso.
        Salena virou-se para o pai, atnita.
        - Mais?
        - At mesmo a mais linda das mulheres precisa de uma moldura.
        - Papai, voc no est sugerindo...
        - No estou sugerindo; estou dizendo. A no ser que o prncipe esteja disposto a lhe fornecer alguns vestidos, voc ter que usar as roupas que tem, ou andar 
nua!
        - M... mas... papai!
        - Escute aqui, Salena, e escute com ateno. Quando digo que estou falido, quero dizer exatamente isso. Tambm tenho dvidas. Ento, para falar sem rodeios, 
voc e eu teremos que viver de expedientes.
        - Voc  to inteligente e to divertido, papai, que tenho certeza de que todo mundo tem prazer em lhe oferecer hospitalidade, mas  muito diferente quando 
se trata de mim! Pensar que o prncipe vai pagar tambm as minhas roupas  uma coisa horrvel!
        - No h outro jeito.
        - Tem... certeza, papai?
        - No pense que no analisei tudo! Mesmo morar com outras pessoas acarreta despesas, de um jeito ou de outro. Ultimamente, tive muito azar no jogo de cartas 
e me vi obrigado a pedir dinheiro emprestado at para dar gorjetas aos empregados.
        Havia na voz do pai um tom que fez com que Salena compreendesse at que ponto ele estava perturbado. Embora ela achasse que, nesse caso, jogar era uma loucura, 
teve a sabedoria de ficar calada.
        Pela primeira vez, desde que tinham sado da estao, deixou de olhar para o pai, para ver onde iam.
        Tinham sado da cidade e estavam agora numa estrada que tinha o mar de um lado e rochedos altos do outro.
        Buganvlias vermelhas subiam pelas rochas; havia uma profuso de gernios cor-de-rosa e rvores de mimosas douradas que deram a Salena a impresso de reter 
o sol.
        -  lindo! Oh, papai,  lindo! - Olhou para o mar. - Que iate maravilhoso! Veja s, papai!
        Um iate branco com os mastros delineados contra o cu movia-se sobre a gua azulada, deixando um rastro branco.
        Com a bandeira branca na popa, tinha uma qualidade mgica, de modo que foi difcil imaginar porque lorde Cardenham franziu a testa, observando:
        -  o Afrodite. Pertence ao duque de Templecombe, o maldito!
        - Por que o est xingando, papai?
        - Pura inveja, boneca! Templecombe , depois da realeza, um dos homens mais importantes da Inglaterra. Possui casas, cavalos e a melhor caa! Todas as coisas 
que desejo e que no posso ter!
        - Pobre papai!
        - No, exatamente. Tenho uma coisa que ele no tem.
        - E o que ?
        - Uma filha muito bonita e meiga!
        Salena deu uma risadinha de felicidade e encostou a face no ombro do pai.
        - Estou to... to feliz por estar com voc!
        - Vai gostar da vila do prncipe.  magnfica, embora no tenha sido construda por ele. Serge comprou-a de um pobre diabo que perdeu tudo no cassino e se 
suicidou, no tendo coragem de enfrentar a misria.
        Salena estremeceu. Era esse tipo de histria que tinha ouvido a respeito de Monte Carlo. Passou-lhe pela cabea a idia de que detestaria morar numa casa 
cujo antigo dono se suicidara.
        -  uma sada que eu mesmo cheguei a considerar - disse o pai, gravemente.
        - Oh, no! Voc no pode pensar numa coisa dessas!  errado! ... pecado! A vida  um dom precioso de Deus.
        -  uma pena que Deus no seja mais generoso em outras coisas. - Lorde Cardenham olhou para ela e acrescentou: - Mas talvez tenha sido. Ele me deu uma filha 
muito bonita.
        Salena aproximou-se um pouco mais e colocou a mo na dele.
        -  maravilhoso ouvi-lo dizer isso, papai. As outras meninas na escola costumavam rir de mim e dizer que eu parecia um beb e que ningum ia acreditar que 
eu era adulta.
- Voc parece de fato muito jovem.
        De novo examinou a filha e, com uma surpreendente veia potica, comparou-a a uma flor.
        O rosto mido, de queixinho pontudo, era completamente dominado pelos olhos enormes, cinzentos com reflexos verdes.
        Eram bem separados e tinham a inocncia de uma criana que ainda no conhecia o mundo.
        Pela primeira vez, lorde Cardenham imaginou se no estaria cometendo um crime contra a natureza ao trazer uma criatura to inexperiente para Monte Carlo.
        Depois disse a si mesmo que no havia remdio e que talvez o fato de ser to ingnua a impedisse de compreender muita coisa do que fosse dito ou feito.
        Em voz alta, comentou:
        - Voc vai achar uma miscelnea de pessoas hospedadas na vila, mas todas tm uma coisa em comum: vivem para o jogo.
        -  tudo to lindo - disse Salena, olhando para o mar. -- Deve haver outras coisas para fazer, aqui.
        - Voc ver que no so importantes.
        - Sero importantes para mim. Sim, pois uma coisa  bvia, papai: no posso arriscar nem mesmo um tosto, para no perd-lo!
        - Isso  um fato indiscutvel! - concordou o pai, sorrindo. Os cavalos estavam saindo da estrada.
        - C estamos. E deixe-me dizer-lhe que esta  uma das vilas mais atraentes de toda a Cote d'Azur.
        Desceram lentamente por uma alameda sinuosa cercada de pinheiros e com muros cobertos de gernios.
        Um pouco abaixo da estrada por onde tinham vindo ficava a vila, num pequeno promontrio que avanava para o mar. Branca, brilhando ao sol, era impressionante, 
e, quando Salena entrou no saguo fresco, teve a impresso de entrar num pas encantado.
        Era, sem dvida, muito diferente da casa estreita e alta de Eaton Square, onde morara quando a me ainda estava viva e que sempre pareceu pequena demais 
para eles.
        Aqui havia espao, luxo, e os espelhos das paredes refletiam o sol que entrava pelas janelas, de modo que tudo parecia reluzente.
        O pai caminhou  frente dela por um salo lindamente decorado e passou para um terrao onde se viam toldos azuis para proteger do sol.
        Havia apenas duas pessoas ali, sentadas em cadeiras baixas e confortveis. Uma era uma senhora que Salena achou extraordinariamente bela; a outra, um homem 
que levantou e se dirigiu para eles.
        - C est voc, Bertie - disse ele para lorde Cardenham. - Achei que o trem devia estar atrasado.
        - Estava, mas acabou chegando. Alteza, permita que lhe apresente minha filha, Salena.
        A moa fez uma reverncia e olhou com interesse para o prncipe. Era um homem de uns quarenta anos, que, pensou ela, devia ter sido muito bonito, quando 
moo. Agora estava pesado, tanto nas feies, quanto de corpo.
        Tinha olhos escuros, um tanto saltados, que a examinaram de um modo que a deixou constrangida.
        Os cabelos grisalhos nas tmporas estavam penteados para trs e a testa era larga.
        - Seja bem-vinda, Salena - disse, num ingls com um sotaque pronunciado. - Espero que seu pai lhe tenha dito que estou encantado por t-la como hspede.
        -  muita amabilidade sua, alteza.
        O pai estava beijando a mo da senhora reclinada na cadeira sob o toldo azul.
        - Madame Versonne, quero que conhea minha filhinha Salena.
        - Mas, naturalmente... estou encantada!
        Mas a francesa no parecia assim to encantada, e Salena percebeu que ela a examinava de um modo depreciativo.
        Fez uma reverncia e ficou esperando que lhe dissessem o que fazer em seguida.
        Madame Versonne levantou, dirigindo-se a lorde Cardenham.
        - Agora que chegou, vou repousar um pouco. Est muito quente aqui, mas eu estava divertindo Serge. Pelo menos, assim o espero.
        Olhou de um modo provocante para o prncipe, e ele respondeu com o elogio que ela obviamente esperava.
        Depois, com as saias de seda farfalhando de modo provocante e deixando atrs de si um perfume extico, madame Versonne caminhou ao longo do terrao, entrando 
no salo por uma porta-janela aberta.
        - Faa o favor de sentar - disse o prncipe. - Garanto, Bertie, que voc est precisando de um drinque, depois de ter esperado pelo trem nesse calor insuportvel. 
Nunca vi tanto calor em abril.
        Salena teve vontade de dizer que era delicioso, mas estava ocupada demais em olhar  volta, sem parecer demasiadamente curiosa.
        Havia uma escada de mrmore branco levando do terrao ao jardim l embaixo, e percebeu que a vila era construda em trs planos diferentes.
        O jardim, no promontrio de rocha que avanava para o mar, ficava apenas um pouco acima do nvel da gua. No centro, havia uma fonte de pedra; rvores grandes 
e frondosas cercavam um gramado verde, e os canteiros estavam cheios de flores exticas, das quais ela apenas reconhecia algumas.
        Alm do jardim, atravs das rvores, podia ver a curva da costa em direo a Monte Carlo e, do outro lado, se  que estava bem lembrada, em direo aos rochedos 
de Eze.
        - Que maravilha estar aqui, pensou. Mais bonito ainda do que imaginava.
        O mar era de um azul vivo, exceto na linha do horizonte, onde adquiria uma tonalidade verde-esmeralda.
        Tinha ouvido muitas vezes as colegas falarem sobre a Cote d'Azur, mas elas sempre ficavam em casa de amigos em Nice ou em Cannes. Embora falassem sobre Monte 
Carlo com curiosidade, de respirao suspensa, nenhuma havia visitado o principado.
        Mas eu estou aqui, pensou Salena.
        Desejou por um momento poder voltar  escola no ano seguinte, s para ter mais o que contar do que as outras.
        - Em que est pensando? - perguntou o prncipe, em voz profunda.
        Ela se virou para ele, com olhos brilhantes.
        -  lindo! J tinha lido alguma coisa sobre o azul da Frana e estudado um pouco de sua histria, mas no sabia que era to bonito.
        O prncipe sorriu.
        - Foi o que tambm senti, quando vim pela primeira vez. Mas meu pas tambm  muito bonito.
        - Foi o que ouvi contar.
        Ouvira falar tambm das crueldades perpetradas na Rssia e do sofrimento da maioria da populao, mas no julgou que fosse o tipo de observao apropriada.
        Em vez disto, achou que devia perguntar ao prncipe sobre a corte russa e a magnificncia do palcio de So Petersburgo.
        Mas, antes que pudesse falar, seu pai, que estava sentado do outro lado do prncipe, disse, inesperadamente:
        - Tire esse chapu feio, Salena. Quero que Sua Alteza veja seus cabelos.
        Olhou para ele, admirada, mas, como estava habituada a obedecer, tirou imediatamente o chapu, temendo que os cabelos estivessem em desordem.
        Tinha se penteado de maneira muito simples, com um coque na nuca, mas quando se viram livres do chapu os cabelos dourados caram sobre a testa com uma onda 
natural que reteve os raios do sol.
        - No h ningum mais experiente do que voc, Serge, quando se trata do sexo feminino. Diga-me, ento: como  que ela deve se vestir e que cores usar?
        - H apenas uma pessoa em Monte Carlo que poder fazer justia  sua filha.  Yvette.  uma artista no ramo e jamais comete o erro de arruinar a personalidade 
de uma mulher com uma ostentao exagerada, como acontece com muitas costureiras.
        - Continue, Serge, estou ouvindo - disse lorde Cardenham. - Mas, no que me diz respeito, posso tanto pagar pelos vestidos de Yvette quanto andar sobre as 
guas do mar!
        Falou sem o menor constrangimento, mas Salena sentiu que ficava vermelha.
        Sabia perfeitamente por que motivo o pai estava chamando a ateno para ela e achou que seria prefervel fugir e se esconder, a v-lo dar indiretas to bvias 
e dirigir a conversa para o assunto de seu interesse.
        Percebeu que o prncipe tambm compreendia aonde seu pai queria chegar. Com uma leve nota de cinismo na voz, o russo disse:
        - Na minha opinio, Bertie, para uma pessoa to linda como sua filha, s se pode exigir o que h de melhor!
        - Est falando srio?
        - Claro. Mande um criado a Monte Carlo dizer a Yvette que venha c, assim que for possvel. Acho que ela conhece o caminho at de olhos vendados.
        - Fico-lhe muito grato e sei que o mesmo se d com Salena. Voc precisa agradecer ao prncipe, querida, por tanta generosidade.
        - Obrigada... muito obrigada.
        Sentia-se to constrangida que no pde encarar o prncipe. Era degradante que seu pai pedisse to abertamente a algum que pagasse pelas roupas da filha.
        O prncipe,  claro, estava em condies de fazer isso, mas Salena sabia que tal situao teria escandalizado sua me e, certamente, horrorizado a irm superiora.
        Felizmente, apareceu um criado com um balde de gelo de prata e uma garrafa de champanhe.
        Trs taas foram colocadas na mesa, mas, quando foram servir Salena, ela fez um gesto negativo.
        - No, obrigada..
        - No gosta de champanhe?  - perguntou o prncipe.
        - No tenho bebido champanhe muitas vezes. S no Natal e no aniversrio de papai.
        - Prefere uma limonada?
        - Sim, por favor.
        O prncipe deu uma ordem ao empregado e depois disse, pensativo:
        - Voc causa inveja, Salena, por estar comeando a vida, quando tudo  novo e interessante. Fico imaginando como nos sentiramos, Bertie, se voltssemos 
aos nossos dezoito anos!
        - Faz muito tempo - disse lorde Cardenham. - Mas lembro que fiquei muito excitado, quando fiz minha primeira conquista.
        - E eu me lembro muito bem de um caso de amor que tive nessa idade - contou o prncipe. - Claro que no foi o primeiro, mas eu estava apaixonadssimo. Vi 
o mesmo bal, uma noite atrs da outra, e sempre o achei interessante.
        Os dois homens riram, e Salena achou que, nos anos futuros, quando olhasse para trs, sempre lembraria a primeira vez em que tinha visto o sul da Frana, 
o iate branco sobre o azul do Mediterrneo'...
        Depois que terminou a limonada, o prncipe sugeriu que ela fosse ver seu quarto.
        - Yvette no deve tardar - disse ele. - Ento, escolheremos o vestido que dever usar hoje  noite e outros que usar at que eu lhe fornea tudo que for 
necessrio.
        - Tenho certeza... de que... no precisarei de muita coisa - disse, constrangida.
        Notou o ar taciturno do pai e compreendeu que ele pretendia tirar do prncipe tudo que fosse possvel. De novo, ficou envergonhada.
        Ao chegar no quarto, suas malas tinham sido desfeitas. Olhou para o retrato da me, agora sobre a penteadeira, e ficou imaginando o que ela teria pensado 
de tudo aquilo.
        Era apenas um esboo, feito por um amador, porque a me nunca pde ser retratada por um profissional. Mas o artista captou bem a semelhana, e agora Salena 
achou que a me a fitava com ar de censura.
        - Como  que posso evitar? - murmurou. - Papai est errado, mas no posso ficar aqui com ele, nesta vila elegante, a no ser que tenha roupas decentes.
        Decentes no era, certamente, a palavra exata para descrever os vestidos que Yvette trouxe de Monte Carlo.
        A modista no chegou to depressa como o prncipe imaginava. Achando que o pai esperava que ela aguardasse no andar de cima, Salena deitou na cama e ficou 
apreciando a vista, pela janela aberta.
        Aquilo atiava sua imaginao. Estava to absorta que no percebeu a passagem do tempo, at ouvir uma batida na porta. Voltou a si, com um sobressalto.
        A costureira entrou com uma poro de caixas e uma ajudante para abri-las.
        Madame Yvette era uma francesa morena, viva, feia, mas extremamente chic.
        - Falei com seu pai e com Sua Alteza. Disseram-me para vesti-la com minhas criaes especiais e mand-la depois ao salo, onde estaro esperando para examin-las.
        - Eles me faro ficar... constrangida.
        - No vai ficar constrangida depois que eu a tiver vestido, mademoiselle. Oh, meu Deus! No compreendo como  que uma senhora pode se vestir dessa forma!
        Salena explicou que acabava de sair da escola e Yvette aceitou a explicao, mas atirou no cho, com ar enojado, o vestido simples, mal talhado, com o qual 
a moa tinha viajado.
        Quando j estava com o traje de noite, Salena olhou-se no espelho e julgou ver uma estranha.
        Madame Yvette comeou apresentando um colete justo, para afinar a cintura.
        - Est apertado demais, madame! - queixou-se Salena. Mas a francesa no lhe deu ateno.
        - Seu corpo  muito bonito, mademoiselle. Seria um crime escond-lo!
        - Mas mal posso respirar.
        - Isso porque deixou seus msculos ficarem flcidos.  errado, muito errado. O corpo deve sempre ser contido e controlado.
        O vestido de tule branco, que revelava no apenas a cinturinha de Salena, como tambm a curva dos seios e a brancura da pele, parecia muito ousado. Apesar 
disso, tinha um ar etreo que acentuava a mocidade de Salena e seu rosto lindo.
        Yvette observou-a, atentamente.
        - Cest bien. Precisa de algumas jias, mas...
        - No, no! Por favor, no... fale nisso.
        Desconfiava de que o pai no hesitaria em pedir tambm jias ao prncipe, se achasse que era necessrio.
        - V at o salo e exiba-se - disse Yvette. - Depois, arranjarei um vestido para voc usar amanh.
        Salena obedeceu, mas, quando entrou no salo, estava muito envergonhada.
        O pai e o prncipe fumavam e bebiam, sentados num sof. As persianas abaixadas tornavam a sala fresca, tirando-lhe o brilho da luz l de fora. Mas Salena 
sentia-se muito exposta.
        - Deixe-me v-la - ordenou o prncipe.
        - Voc tinha razo, Serge. Aquela mulher  um gnio! Eu no poderia imaginar um vestido mais apropriado para uma mocinha.
        Salena adiantou-se, lentamente.
        Sabia que era tolice, mas desejou que o vestido no fosse to justo nem to revelador.
        Sentia-se quase como se os olhos escuros do prncipe a vissem nua. Quis estar usando o vestido feio e disforme, com o qual tinha chegado ali.
        - Est muito bonita! - declarou o dono da casa. - E, naturalmente, muitos homens lhe diro isso, antes do fim da noite.
        - Eu... espero que no.
        O prncipe ergueu as sobrancelhas, e ela explicou, hesitante:
        - Fico... envergonhada... quando as pessoas me olham. Mas talvez o senhor esteja apenas sendo... amvel.
        - Claro que estou sendo amvel. E estou pronto a ser muito mais.
        - Sim, eu sei... e estou muito... grata. - Salena gaguejava, sentindo que no se expressava com coerncia.
        Desejou ardentemente estar de volta  escola, onde ningum a olhava daquele jeito. Quando percebeu que no agentava mais, virou-se em direo  porta.
        - Madame tem outro vestido para eu vir mostrar - disse, saindo apressada.
        Dali a algumas horas, quando enfiava o vestido de noite, j com os cabelos penteados por uma cabeleireira de Monte Carlo, Salena disse a si mesma que precisava 
agir como adulta, e no como uma colegial amedrontada.
        Tinha ido quatro vezes ao salo mostrar ao pai e ao prncipe as roupas de madame Yvette e, a cada vez, ficou mais encabulada. Provavelmente, por causa da 
maneira como o russo a olhava e das coisas que disse.
        Suas palavras sempre pareciam ter um duplo sentido e muitas vezes provocaram o riso de lorde Cardenham, embora Salena no achasse a mnima graa.
        - Preciso no fazer papel de tola, para no envergonhar papai - murmurou, diante do espelho.
        A criada que a ajudava a se vestir no lhe poupou elogios.
        - M'mselle est ravissante! Assim como os lrios que cultivamos para o mercado de Nice.
        - O mercado de flores? Ouvi falar dele e gostaria de visit-lo. As flores devem ser lindas.
        - Os cravos vm de toda a costa para serem vendidos l. E tambm os lrios... lrios para as igrejas. - Sorriu. - Desse jeito, m'mselle devia estar numa 
redoma, numa de nossas igrejas; no nas salas de jogo de Monte Carlo.
        - Vamos a Monte Carlo hoje  noite?
        - Mais oui, mmselle. Todas as noites, todas as tardes... s vezes at de manh... todo mundo vai ao cassino. Quanto a mim, acho que  jogar dinheiro fora.
        - Tambm acho.
        Ao mesmo tempo, tendo ouvido falar tanto dele, no podia deixar de achar que seria excitante conhecer o cassino, mesmo que no jogasse.
        Bateram na porta, e Salena soube que era o pai, que tinha prometido vir busc-la para acompanh-la at embaixo.
        Lorde Cardenham parecia muito prspero com um alfinete de prola brilhando na gravata, camisa alva e engomada, um cravo vermelho na lapela. Sempre tinha 
sido um homem bonito, e Salena achou impossvel algum imaginar que fosse pobre como realmente era.
        - Pronto, querida?
        - Estou bem, papai?
        - Acho que o prncipe j lhe fez elogios suficientes para tornar os meus desnecessrios.
        Havia na voz dele uma nota de satisfao que no passou despercebida a Salena.
        - Como  que podemos dizer ao prncipe como estamos gratos por sua generosidade? - perguntou a moa.
        A empregada j tinha sado, e aquela era uma pergunta que Salena pretendia fazer ao pai, assim que ficassem a ss.
        - Deixo isso por sua conta, querida.
        - Por minha conta? Mas eu no... sei... o que mais dizer.
        - Ento, torne-se o mais agradvel possvel. Poucos homens ricos seriam to generosos com algum que nunca tivessem visto antes e de quem soubessem pouca 
coisa.
        - Desconfio de que voc falou a ele a meu respeito, papai.
        - Claro que descrevi as circunstncias em que voc se encontra. Os russos so muito sentimentais e, com uma jovem sem me para aconselh-la, e com um pai 
de bolso furado, voc  mais do que pattica!
        Salena suspirou.
        - O prncipe foi muito amvel, mas eu gostaria que voc no tivesse pedido nada.
        - Ele ofereceu - disse o pai, na defensiva.
        Salena queria dizer que ele tinha tornado difcil para o prncipe agir de outra forma, mas sabia que qualquer protesto que fizesse seria perda de tempo. 
O pai sempre estava de olho na oportunidade melhor que surgisse e era difcil censur-lo, pois tambm estava sempre  beira da falncia.
        Ele passou o brao em volta da cintura de Salena, puxou-a e beijou-a na face.
        - Agora, procure expressar sua gratido ao prncipe. E, pelo amor de Deus, no haja como se tivesse perdido a lngua! O mal das inglesas  que no tm nem 
a metade da vivacidade das mulheres de outras raas.
        - Vou procurar dizer a coisa certa.
        - Isso mesmo. Agora, vamos descer. Quero ver a cara de madame Versonne, quando a vir. Tenha cuidado com ela:  uma fera!
        - De que maneira? No compreendo.
        Lorde Cardenham esteve a ponto de explicar, mas mudou de idia.
        - Ficar sabendo, mais cedo do que pensa. Seja apenas voc mesma e cruze os dedos!
        - Para ter sorte, papai?
        - Para ter sorte. Foi isso que achei que voc ia me trazer, quando a vi na estao, boneca.
        Levou Salena para baixo, em direo ao salo. Quando entraram, j parecia repleto de gente.
        Havia som de risos e de conversas. Salena viu ento o prncipe sair de um grupo de pessoas, entre elas madame Versonne.
        Tinha achado a francesa bonita, ao v-la no terrao, mas de vestido de noite estava sensacional! Havia plumas de avestruz na barra do vestido e tambm nos 
ombros, parecendo que ela acabava de sair das ondas do mar. Tudo que usava era verde, complementado por um rico colar de esmeraldas.
        O penteado era sofisticado, com um arranjo no alto da cabea: uma pluma de avestruz presa por um enorme broche de esmeraldas e brilhantes.
        Salena olhou-a com tanta admirao, que no percebeu que o prncipe estava a seu lado. Quando o viu, fez uma reverncia.
        - Voc est exatamente como eu esperava.
        - Obrigada. No sei como dizer o quanto me sinto grata  Vossa Alteza.'
        - Vamos deixar o que temos a nos dizer para depois, quando estivermos a ss.
        - Sim... naturalmente - respondeu a moa, percebendo que ele no queria que os outros convidados soubessem de sua generosidade.
        - Agora, quero apresent-la a meus amigos.
        Segurou o cotovelo de Salena e conduziu-a pela sala. Havia tantos rostos desconhecidos, tantos nomes difceis de pronunciar, tantos ttulos, que, no fim, 
ela no sabia mais a respeito dos convidados do que sabia a princpio.
        O prncipe afastou-se, quando outra pessoa foi anunciada, e Salena ficou contente por poder se aproximar do pai.
        Ele conversava com madame Versonne, e a moa teve a impresso de que o olhar da mulher endureceu, ao v-la.
        - Sua filha devia estar num baile de debutantes, em vez de fazer sua estria num salo de jogo.
        - Salena no vai fazer isso - respondeu lorde Cardenham. - Alm do mais, acho que o nmero de debutantes  pequeno, aqui em Monte Carlo.
        Madame Versonne deu uma risada desagradvel.
        - Elas no duram muito em lugar algum; menos ainda quando h guias imperiais prontas a bic-las.
        Parecia haver um duplo sentido no que dizia, que Salena no entendeu. Quando a mulher os deixou, indo na direo do prncipe, lorde Cardenham disse:
        - Eu a avisei a respeito dessa mulher. Fique longe de suas garras!
        - Parece que no gosta de mim. No compreendo porque, se s me conheceu hoje.
        O pai sorriu.
        - No precisa procurar o motivo muito longe.
        - Diga-me... - comeou Salena, mas algum veio falar com seu pai e ele no pde responder.
        A mesa de jantar, ela se viu sentada entre um russo idoso, que s queria falar dos diferentes sistemas que testava nas mesas de jogo, e um francs que lhe 
fez elogios to extravagantes que ela os achou ridculos.
        A comida era deliciosa, e a mesa no apenas estava cheia de enfeites de ouro, como decorada com orqudeas.
        Salena estava atnita. Sabia que eram as flores mais caras que havia e achou incrvel que fossem usadas com tanta profuso, s para enfeitar a mesa.
        Verdade que tudo a respeito do prncipe parecia extravagante: a comida, o vinho, as jias das senhoras, a opulncia dos homens.
        Era um mundo no qual Salena imaginava que o pai se movimentava  vontade, mas que ela jamais conheceu.
        No pde deixar de pensar que era estranho que ela e o pai, que no possuam um nquel e no sabiam de onde viria o prximo, estivessem no meio daquela gente.
        Creio que papai poderia trabalhar para ganhar dinheiro, pensou. Mas, e eu, que poderia eu fazer?
        No tinha nenhuma aptido rendosa. Sabia desenhar e pintar; como amadora, tocava piano, mas no era nenhuma artista; e a nica carreira para uma moa de 
boa famlia era a de governanta ou dama de companhia.
        Deu um suspirozinho.
        Detestaria ser uma dessas coisas, pensou, tentando imaginar, ansiosamente, o que o futuro lhe reservava.
        No podia deixar de se preocupar, pois, quando sassem da vila, no teriam para onde ir.
        Para seu pai, o problema no seria grande. Sempre havia pessoas dispostas a convid-lo, oferecendo-lhe o que ele chamava de "uma cama onde dormir e um teto 
sobre a cabea", porque era encantador e fazia sucesso em qualquer reunio social.
        Salena lembrava de ter ouvido a me dizer que o marido recebia muitos convites nos quais no a incluam.
        - Sabe, querida? Todo o mundo quer um homem avulso. Principalmente, um homem como seu pai. Um casal  mais difcil; ainda mais, quando nada tem a oferecer.
        - Que  que vocs poderiam oferecer?
        - Hospitalidade - respondeu a me. - Se tivssemos uma casa no campo, ou pudssemos dar um baile em Londres, ou mesmo jantares divertidos, poderamos fazer 
o que seu pai chama de "pagar" os convites. Mas no estamos em condio de retribuir nenhum deles.
        Salena era muito jovem na ocasio. Mas,  medida que crescia, foi percebendo que havia muitas ocasies nas quais nem mesmo os amigos mais ntimos dos pais 
os convidavam.
        A me achava aquilo natural, mas o pai blasfemava, e Salena sabia que se sentia frustrado por ser deixado de lado.
        Era uma questo de "pagar", pensou agora. Mas como poderia ela "pagar" pelo que algum lhe fizesse de bom?
        Olhou para a mesa comprida, para o lugar onde estava sentado o prncipe, tendo de um lado madame Versonne e do outro uma senhora muito atraente.
        Elas o faziam rir.
        Havia qualquer coisa na ateno que as duas lhe davam, na maneira com que se inclinavam para ele, que Salena pensou que era essa a maneira de demonstrarem 
sua gratido e, talvez, sua afeio pelo prncipe.
        -  isso que ele... espera de mim, disse a si mesma.
        Sem saber porque, tal pensamento fez com que sentisse um calafrio.

CAPTULO II


        - No, papai! No posso! No posso!
        Lorde Cardenham foi at a janela do quarto de Salena e ficou olhando o mar. No disse nada, e ela continuou, nervosa:
        - Quero satisfaz-lo, papai, mas detesto o prncipe. No sei explicar. Ele me d medo. H qualquer coisa na maneira com que olha para mim...
        No era apenas a maneira de olhar; Quando a tocava, ela sentia repulsa, como se uma cobra deslizasse por seu corpo.
        O prncipe parecia estar sempre junto dela, de modo que sua mo tocava a de Salena, ou os ombros de ambos se roavam.
        
        Na ltima semana, teve a sensao de que aquele homem cada vez se agarrava mais a ela;  noite, muitas vezes acordava com um sobressalto, porque ele a fazia 
ter pesadelos.
        Percebia que madame Versonne a olhava com dio e se dirigia a ela de maneira cada vez mais agressiva, fazendo com que se encolhesse toda e procurasse ficar 
o mais apagada possvel.
        E agora, o pai lhe dizia que o prncipe queria casar com ela. Era inacreditvel! Absurdo!
        - Ele  velho, papai. Claro que gostaria de me casar, um dia. Mas quero casar por amor... e com um moo.
        - Os moos no tm dinheiro!
        Disse isso com dureza. Virou-se depois, tendo nos olhos uma expresso que a filha nunca tinha visto antes.
        - No pense que no refleti sobre o assunto. Muitas vezes, fiquei acordado  noite, procurando outra soluo. Mas. francamente, querida, no h o que possamos 
fazer.
        Salena fitou-o com olhos sombrios e amedrontados no rosto plido.
        - Quer dizer que tenho que casar com o prncipe... porque ele  rico?
        - Ele fez hoje uma doao a voc de duas mil libras por ano.  bastante inteligente para saber o que isso significa para ns dois.
        Salena deixou escapar um pequeno gemido, mas no disse nada. O pai continuou:
        - Duas mil libras por ano  uma quantia considervel. Alm do mais...
        Interrompeu-se, parecendo constrangido, e Salena perguntou:
        - Ele est dando alguma coisa para voc tambm, papai?
        - Est me dando o bastante para eu pagar minhas dvidas e no ficar desesperado a respeito do futuro, como tenho me sentido h muito tempo.
        Houve um momento de silncio. O pai continuou:
        - Sou obrigado a lhe pedir isso, Salena. Ou ento, terei que meter uma bala na cabea e acabar com tudo.
        - Que quer dizer com isso?
        - Quero dizer que, se eu no puder pagar minhas dvidas, serei processado e a inevitvel publicidade me obrigar a pedir demisso de meus clubes.
        Salena sabia bem o que esse sacrifcio significaria. A vida do pai, quando no estava hospedado em casa de amigos, se concentrava nos dois mais exclusivos 
e mais elegantes clubes de Londres, dos quais era scio.
        - Voc fez alguma coisa errada, papai?
        - Voc e, provavelmente, sua me considerariam errado. Devo dizer que arrisquei, quase obtive sucesso, mas perdi.
        - Quer dizer que, se eu no casar com o prncipe, voc se ver em srios apuros?
- Muito srios!
        Salena suspirou. Devia ter adivinhado, quando o pai lhe falou que o prncipe a pedira em casamento, que no haveria escapatria possvel. Como a idia a 
horrorizava, fazendo-a sentir que no poderia suportar o que a esperava, correu para o pai como uma criana amedrontada.
        Lorde Cardenham apertou-a nos braos. Disse, com voz embargada:
        - Sou um pssimo pai, boneca, mas, pelo menos, voc ter o futuro garantido.
        A moa teve vontade de responder que nada de pior lhe podia acontecer do que ser esposa do prncipe. Mas sabia que o pai estava sofrendo e, porque o amava, 
conseguiu dizer, com uma coragem que estava longe de sentir:
        - Vou procurar fazer como voc quer... que eu faa.
        O pai segurou-lhe o queixo e fitou-a por um longo momento. Depois, quase que falando consigo mesmo, observou:
        - Se ao menos houvesse mais tempo, se pudssemos esperar... talvez aparecesse um outro.
        Salena no pde deixar de pensar que muitos homens lhe tinham feito elogios, desde que chegara a Monte Carlo. Todas as noites em que tinham ido ao cassino, 
sempre alguns cavalheiros se aproximavam, obviamente com desejo de conhec-la.
        Embora isso a tivesse deixado constrangida e ela nem sempre soubesse o que lhes dizer, aqueles homens no a faziam sentir repulsa, como acontecia com o prncipe.
        Um dos motivos de Salena gostar de ir ao cassino era que, assim que chegavam, seu anfitrio era logo levado por madame Versonne para a mesa de bacar.
        A francesa sentava ao lado dele, enquanto o prncipe, a exemplo de outros homens imensamente ricos, tentava quebrar a banca.
        O pai lhe contou quem eram os outros jogadores. Quando, inocentemente, ela perguntou porque homens to ricos queriam ganhar mais dinheiro, ele respondeu:
        - No h muito sentido em jogar, mas isso d a esses milionrios uma emoo  qual so incapazes de resistir.
        Salena sabia que ele prprio estava louco para jogar, mas no tinha dinheiro para isto. De vez em quando, arriscava alguns francos na roleta ou no trente-et-quarante.
        Ficava to aflita, com tanto medo de que perdesse, que era um sofrimento observar a virada de uma carta ou a parada da bola na roleta.
        Depois, inevitavelmente, chegava a hora em que o prncipe se juntava a eles, com os olhos fixos no rosto dela, a mo procurando toc-la.
        Salena desejava correr e se esconder, mas depois lembrava, com desespero, que ele tinha pago o vestido que estava usando e, portanto, era preciso ser corts 
e mostrar-lhe sua gratido.
        Como todos os hspedes da vila eram estrangeiros, Salena desejava ardentemente ver o rosto de um ingls e poder falar com algum compatriota. Certa noite, 
um homem, que obviamente era ingls, cumprimentou o pai dela, quando passava por um dos sales.
        Era alto, de ombros largos, pele clara, embora os cabelos fossem castanho-escuros. 
        Assim como todos os freqentadores do cassino, estava alegremente vestido, mas dava a impresso de usar suas roupas com naturalidade, como se fizessem parte 
dele.
        - Boa noite, Cardenham.
        - Espero que seja. Mas ainda  cedo para se saber.
        O ingls percebeu que ele se referia ao jogo e deu uma risada.
        - Quem ? - perguntou Salena.
        Ficou olhando o homem alto e de ombros largos caminhar por entre as mulheres de vestidos brilhantes e os homens que, de certo modo, pareciam estufados em 
seus trajes de noite.
        -  o duque de Templecombe.
        - Foi o iate dele que vimos quando eu cheguei - disse ela, com um ligeiro tremor na voz.
        - Sim, o Afrodite. Eu gostaria de visit-lo, se tivesse oportunidade, pois dizem que  um dos barcos mais modernos, em seu gnero, em toda a Inglaterra:
        - Eu tambm gostaria.
        Nas noites seguintes, ela procurou pelo duque, na esperana que conversasse com o pai, mas ele no apareceu. Certa noite, lorde Cardenham chamou-a a um canto.
        - H uma coisa que preciso lhe dizer.
        Pelo tom de voz, Salena percebeu que ele estava constrangido.
        - Que , papai?
        - O prncipe quer que case com ele imediatamente!
        - Imediatamente? Oh, no! Impossvel!
        - Ele insiste. E, francamente, estou precisando do dinheiro que me prometeu.
        - Como  possvel? Como  que podemos casar to depressa? Que  que... madame Versonne vai dizer?
        Mesmo para uma pessoa inexperiente como Salena, era bvio que a francesa considerava o prncipe sua propriedade particular.
        Estava sempre ao lado dele, e seu ar de proprietria e a maneira com que se arvorara em anfitri na vila tinham feito Salena sentir que estava certa de que 
era com ela que o prncipe casaria.
        - O prncipe pensou em tudo - disse lorde Cardenham. - Neste momento, est informando seus hspedes de que seu criado particular foi atacado por uma forma 
virulenta de escarlatina. Providenciar para que todos se mudem para o Hotel de Paris. Alugou dois andares, e eu devo fazer o papel de anfitrio, at vocs estarem 
casados e terem partido para a lua-de-mel.
        - Mas, papai...
        Compreendeu, ento, que nada do que dissesse adiantaria.
        - O prncipe est dizendo que, como teve contato dirio com seu criado particular, ele prprio precisa ficar isolado durante algumas semanas. A vila vai 
ser supostamente desinfetada, e os convidados devero voltar dentro de alguns dias, mas at l vocs dois j tero partido.
        Dirigiu-se para a janela e acrescentou:
        - S Deus sabe como  que vou dar a notcia a madame Versonne. Vai ficar furiosa! O prncipe lhe dar uma generosa compensao, disso no h dvida.
        - Mas... o que vou fazer? E para onde  que o prncipe me levar?
        - Vocs casaro hoje  noite, aqui na vila, para que ningum fique sabendo de nada. Precisa compreender, Salena, que o prncipe deveria pedir licena ao 
czar, mas disse que seria uma viagem muito longa daqui at a Rssia, para voltar de novo para c.
        - Certamente, seria muito melhor se ele fizesse isso.
        - No seria melhor para mim!
        - No. Claro que no, papai. Eu tinha esquecido.
        - Compreende a necessidade de ficar tudo em segredo? Alm do mais, seria extremamente desagradvel para voc ter que enfrentar madame Versonne e ouvir os 
comentrios dos outros hspedes da vila.
        - Sim, naturalmente. No tenho o menor desejo de ouvir isso.
        Estava de fato com medo de madame Versonne. A natureza sensvel de Salena fazia com que desejasse fugir  clera e  inveja da francesa.
        Todas as mulheres daquele grupo eram do tipo que sua me teria desaprovado e a quem teria tratado friamente. A me jamais havia criticado os amigos do marido, 
mas nas raras vezes que apareceram em sua casa, houve uma indisfarvel atmosfera de hostilidade. Nessas ocasies, lady Cardenham ficava fria e quieta, muito diferente 
da sua maneira sorridente.
        Comparando as mulheres da vila com sua me, Salena achava-as vulgares, ou talvez a palavra certa fosse "levianas". Certa vez, ouviu a me dizer, a respeito 
de certa senhora que no merecia a sua aprovao:
        - Pode ser que os homens gostem dela, mas  uma leviana e, no que me diz respeito, espero nunca mais tornar a v-la.
        Salena tinha certeza de que teria dito a mesma coisa de todas as pessoas que conheceu em Monte Carlo e, principalmente, de madame Versonne.
        Agora, talvez tivesse que conviver com esse tipo de mulher a vida inteira, o que seria muito desagradvel.
        No que todas fossem maldosas e desdenhosas como a francesa. O mal estava na hipocrisia e na maneira como procuravam agarrar o prncipe e os outros homens, 
inclusive seu pai. Era como se representassem um papel. Mas, sob a dissimulao, Salena sentiu que elas estavam apenas agarrando tudo que pudessem, sem sentir afeio 
por ningum.
        - No, papai. Eu detestaria que algum, aqui na vila, ficasse sabendo do meu casamento. Mas... ser que precisa ser to cedo? Hoje  noite?
        - De que adianta esperar? O prncipe providenciou tudo para que no haja tempo para perguntas curiosas.
        - Voc ficar comigo?
        - Creio que isso  impossvel. O prncipe est dizendo que as pessoas que no tiveram contato com o doente no correm perigo, contanto que saiam daqui imediatamente.
        - Mas, papai, no posso ficar sozinha!
        - Ficarei com voc o mximo que puder. Partiremos em vrias carruagens, e serei o ltimo a sair daqui.
        - Mas todo o mundo vai esperar que eu v com voc.
        - O prncipe pensou nisso, tambm. Teoricamente, voc foi convidada por colegas a se hospedar em outra vila e achei que seria bom para voc ficar na companhia 
de gente moa.
        Era justamente isso que ela gostaria: estar na companhia de gente jovem em vez de ficar sozinha com o repulsivo homem idoso que ia ser seu marido.
        - Sinto muito, querida. Sei que foi um choque para voc. Mas acredite em mim: se o prncipe no tivesse sugerido esse casamento, no tenho a mnima idia 
do que poderia fazer para nos livrar da misria!
        Lorde Cardenham olhou para o armrio aberto e viu as dezenas de vestidos que Yvette tinha feito para Salena. Novos vestidos chegavam todos os dias, e, com 
eles, caixas de camisolas enfeitadas de renda, saias de baixo, meias de seda, sapatos da cor dos vestidos e agasalhos enfeitados de pele.
        A princpio, Salena tentou protestar, dizendo que no precisava de tanta coisa. Mas o pai ficou zangado e, ento, ela procurou aceitar de bom-grado o que 
lhe davam a expressar timidamente sua gratido.
        Como se adivinhasse seus pensamentos, lorde Cardenham tirou do bolso um estojinho de jia.
        - Sua Alteza me pediu que lhe entregasse isso. Achou que voc ia gostar e que diminuiria o choque por as coisas terem acontecido to depressa.
        Salena fez um esforo para abrir o estojo. Adivinhava o que continha: um elo da corrente que ia prend-la ao homem que odiava.
        Lentamente, com dedos trmulos, abriu a caixinha. Dentro havia um anel com um enorme rubi cercado de brilhantes.
        Era uma gravao antiga. Lorde Cardenham explicou:
        - Pertence, creio eu,  coleo de famlia do prncipe. Posso lhe garantir uma coisa, Salena: ele a cobrir de jias, porque est completamente apaixonado 
por voc.
        A moa no respondeu. Olhava para o rubi, achando que tinha um brilho malvolo. E ela o detestou.
        - Para dizer a verdade, o prncipe me falou que nunca na vida ficou to encantado por uma mulher, como por voc - continuou o pai. E, em tom mais baixo, 
como se falasse para si mesmo: - Creio que pagaria qualquer preo por voc.
        Salena olhou para o pai.
        - Ele est me comprando. E sinto vergonha por j ter pago tanto.
        - No h motivo para ter vergonha. Voc  bonita, jovem, pura. Qualquer homem ficaria orgulhoso por possu-la. - Olhou para a filha e suspirou: - Se ao menos 
tivssemos mais tempo!
        Salena colocou o anel na penteadeira e fechou o estojo.
        - Quando  que devo ficar pronta?
        - Como o prncipe quer ter certeza de que todos tenham sado da vila, vocs s casaro depois do jantar. As senhoras precisam de tempo para fazer as malas, 
e o prncipe ainda tem que tomar algumas providncias.
        - Quais so elas?
        - Acho que pretende lev-la em seu iate, amanh. Sugeri que voc gostaria de conhecer as ilhas gregas. So muito bonitas nesta poca do ano.
        Salena ergueu os olhos por um momento. Sempre tinha desejado conhecer as ilhas gregas. Mas, ao lembrar em companhia de quem estaria, tudo lhe pareceu sombrio.
        - O prncipe vai lhe explicar tudo, ele mesmo, mas acho melhor voc ficar aqui no quarto at a hora de jantar. At l, todos j tero partido.
        - Papai, no v at ser preciso. Por favor!
        - No, claro que no. Mas eu gostaria de tomar um drinque, e sugiro que voc v se sentar no balco do quarto pegado, pois sei que est desocupado.
        Abriu a porta para olhar o corredor, com ar de conspirador, depois fez a Salena sinal de que podia sair.
        Foram para o outro quarto que dava para o jardim de frente para o mar. Era bem maior do que o que ela ocupava e havia ali uma sacada, com o toldo abaixado 
para manter o ambiente fresco.
        Lorde Cardenham tocou a campainha e, quando um criado apareceu, ordenou que lhe trouxesse champanhe. Depois foi para a sacada. A filha o acompanhou.
        - Uma bebida lhe far bem, querida. Sei que isso foi um choque, mas no h nada como champanhe para fazer que as coisas no paream to negras.
        Salena no respondeu. Lutava contra o impulso de implorar mais uma vez, de pedir ao pai que a salvasse, que a deixasse fugir para se esconder.
        Mas sabia que no podia arruin-lo, s por egosmo.
        
        A me lhe havia dito muitas vezes:
        - Os homens so como crianas, Salena, e temos que tomar conta deles, embora pensem que esto tomando conta de ns.
        - Voc toma conta de papai? - perguntou a menina, curiosa.
        - De uma centena de modos, dos quais ele no tem a mnima idia. Para dizer a verdade, querida, ele se veria metido em encrencas, se eu no estivesse aqui.
        Foi exatamente o que aconteceu, pensou Salena. A me morreu e o pai, sozinho, no soube cuidar de si mesmo.
        
        Preciso salv-lo, pensou. Por mais duro que seja, preciso salv-lo, por causa da mame.
        Sabendo que o pai estava constrangido e talvez at infeliz, Salena segurou-lhe a mo.
        - Tenho certeza de que tudo acabar bem.
        - Estou rezando para que d certo, por sua causa. Lembre-se, querida, de que ter seu prprio dinheiro, e jias.  isso que todas as mulheres desejam e  
o que todas deveriam ter.
        - Onde  que vou morar?
        De repente, teve medo de que o prncipe a levasse para a Rssia e que no visse mais o pai.
        - No sei quais os planos dele, mas suponho que, quando terminar a lua-de-mel, vocs iro para Paris,. Ele possui l uma casa magnfica.
        - Quero estar perto de voc.
        - Creio que isso pode ser arranjado. Sempre me dei bem com Serge. Para dizer a verdade, ele me considera um de seus melhores amigos.
        - Ento, pergunte a ele se voc pode ir se juntar a ns o mais depressa possvel?
        - Precisarei de tato. Tenho a impresso de que o prncipe vai querer ter voc s para ele.
        Salena estremeceu.
        - Quanto tempo a lua-de-mel geralmente dura, papai?
        - Depende.
        Salena achou que ia depender de ela divertir ou no o prncipe. Se a achasse enfadonha, ia querer voltar para a companhia dos amigos alegres.
        - Talvez eu possa v-lo depois de uma semana, papai.
        - Espero que sim. Mas, naturalmente, voc no poder voltar para c.
        Salena imaginou que isso devia ser pelo fato de madame Versonne ainda ser hspede do prncipe.
        Achava estranho que a outra quisesse ficar ali depois do prncipe estar casado, mas no quis fazer muitas perguntas, pois o pai estava contrafeito.
        - Tivemos to pouco tempo juntos. Eu estava com esperana de podermos morar juntos e tomar conta de voc... como mame fazia.
        - Era o que eu tambm queria. Se no tivesse sido to tolo, talvez fosse possvel. Mas no ter dinheiro  o diabo! No adianta fingir que a gente pode viver 
sem ele, Salena, porque no pode!
        - No, papai.
        - E  porque o prncipe solucionou nossos problemas imediatos que vamos ter que organizar o futuro de maneira diferente do que eu pretendia.
        - Que  que voc pretendia, papai?
        - No adianta falar nisso agora. Voc estar garantida, e, como eu disse,  a nica coisa que importa.
        No pde deixar de pensar que estaria bem pouco segura com o prncipe, fosse qual fosse sua posio financeira. Mas sabia que no adiantava falar nisso. 
J estava tudo arranjado e, porque amava seu pai, podia apenas concordar e fingir que no estava morta de medo e enojada por saber que dali a algumas horas seria 
esposa do prncipe. A, ento, ele a tocaria e a beijaria!
        Olhou para o azul do Mediterrneo e desejou poder nadar s e parar em direo ao horizonte enevoado. Todos os seus ideais e todos os seus sonhos a respeito 
de amor e casamento desapareciam.
        Tinha sonhado em um dia encontrar um homem bonito como o pai, por quem se apaixonaria e que tambm se apaixonaria por ela. Teria sido maravilhoso, e eles 
seriam felizes para sempre, como nos contos de fadas.
        Em vez disso...
        Sentiu aumentar dentro do peito a dor que a atormentava desde que o pai lhe disse que deveria casar com o prncipe, apunhalando-a com um sofrimento fsico 
que parecia piorar a cada momento que passava.
        O champanhe chegou e o pai fez com que Salena bebesse um pouco; mas, em vez de afastar seus receios, a bebida pareceu multiplic-los.
        Para onde quer que olhasse, via os olhos do prncipe, com uma expresso aterradora.
        Finalmente, voltou para o quarto e examinou de novo o anel de rubi. Achou "que tambm ele tinha a mesma aparncia assustadora...
        O pai mostrou-se quase despreocupado, quando se despediu, mas a moa sabia que era porque estava com medo de que ela fizesse uma cena.
        - Cuide-se bem, boneca. Lembre que  desagradvel e degradante viver sem dinheiro. Vestidos bonitos e jias cintilantes compensam muita coisa.
        Salena compreendeu que ele se referia aos sentimentos dela pelo noivo.
        Depois que o pai saiu, fechando a porta, teve que morder o lbio para no gritar, pedindo-lhe que voltasse.
        Foi preciso um controle enorme para impedir que abrisse a porta e dissesse que, afinal de contas, aquilo era impossvel; que estava pronta a fazer qualquer 
coisa, ir onde ele quisesse, mas que no podia casar com um velho nojento.
        Em vez disso, correu para a cama, atirou-se nela e enterrou a cabea no travesseiro.
        Com um esforo tremendo, conseguiu no chorar, embora seus olhos ardessem de lgrimas contidas. Depois, ficou  escuta, querendo distinguir o som da ltima 
carruagem a partir, que levaria o pai para longe dela...
        Tinha a impresso de que ele estaria dizendo a si mesmo que nada importava, a no ser o fato de que a filha teria duas mil libras por ano, pelo resto da 
vida.
        Por que iria o pai se importar, se o prncipe era to rico e ela ia ser sua esposa?
        Era compreensvel, pensou Salena, que o pai a estivesse protegendo do dia em que o marido se cansasse e talvez no se mostrasse to generoso.
        Para ela, era difcil no esperar e at mesmo no rezar para que tal dia chegasse depressa.
        - Talvez, afinal de contas, ele no me queira e prefira casar com algum como madame Versonne - disse a si mesma.
        Depois soube que estava apenas sonhando, tentando se enganar com histrias encantadas, como fazia desde menina, quando imaginava que estava tomando parte 
em aventuras estranhas e excitantes. Sempre uma fada boa ou um prncipe encantado a salvavam, no ltimo momento, do perigo dos gnomos, do drago ou do gigante malvado.
        Mas, dessa vez, no havia salvao.
        Uma empregada entrou no quarto, dizendo que o jantar seria s nove horas e que ia preparar o banho de Salena.
        Dali a pouco, chegou uma caixa de madame Yvette, com um vestido de noiva. Era ainda mais bonito do que todos os outros, mas Salena sentiu como se fosse uma 
mortalha.
        Na caixa havia tambm um vu de renda e uma grinalda de flores de laranjeira artificiais.
        Em seus sonhos, sempre usava uma grinalda de flores naturais.
        Mas, nos sonhos, seu casamento era por amor. Aquele era errado e falso! To falso como os botes de laranjeira que pareciam vulgares e vistosos demais, comparados 
com as flores do jardim l fora.
        Deixou que a empregada a vestisse, quase como se fosse uma boneca sem sentimentos.
        - Devo colocar o vu agora? - perguntou, achando que sua voz tinha um som estranho, at mesmo para ela.
        - Acho que Sua Alteza espera isso, m'mselle.
        A empregada estava excitada com a idia de vestir uma noiva e tagarelou o tempo todo. Mas Salena tinha a impresso de que sua voz vinha de muito longe.
        - No princpio do ano, antes de eu vir trabalhar para Sua Alteza, minha irm casou. No foi uma cerimnia grandiosa, mas to feliz! Todo o pessoal da redondeza 
compareceu  igreja e, como no podamos receber, todos contriburam para a festa, i Rimos, cantamos, danamos. Foi o dia mais feliz de minha vida.
        E este  o meu mais infeliz, foi o que Salena teve vontade de dizer.
        Em vez disso, ficou se olhando no espelho, enquanto a criada arrumava o vu em seus bonitos cabelos loiros, fixando-o com a grinalda.
        - M'mselle est trs belle! Salena levantou.
        - Devem ser quase nove horas. Vou descer. Ia sair do quarto, quando a empregada disse:
        - Um momento, mmselle. Esqueceu o anel de noivado! Sua Alteza ficar desapontado se a senhora no o usar no jantar.
        - Sim, claro - disse, sem grande entusiasmo. Deixou que a empregada colocasse o anel em seu dedo.
        Achou que, contra a brancura do vestido, parecia uma gota de sangue. Desceu rapidamente as escadas.
        O prncipe a esperava no salo e Salena percebeu que havia uma profuso de flores, todas brancas.
        Ele estava vestido a rigor, e dois enormes brilhantes cintilavam no peito de sua camisa.
        Fitou-a por um longo momento; depois, quando a moa abaixou os olhos, adiantou-se e pegou-lhe a mo.
        - Estive esperando por este momento.
        Beijou as costas da mo da noiva, virando-a depois e beijando a palma.
        Havia naqueles lbios qualquer coisa dura e vida, algo que fez com que Salena desejasse retirar a mo.
        - Preciso me dominar, pensou. Preciso agir como papai gostaria que eu agisse.
        O prncipe devia ter percebido seu medo, pois estava trmula.
        Salena percebeu que no iam jantar na sala enorme que tinham usado desde sua chegada  vila e, sim, na sala onde costumava tomar o caf da manh. S que 
agora, estava repleta de flores de um branco imaculado.
        Na mesa havia orqudeas brancas, e o perfume dos lrios era quase insuportvel.
        - Nossa primeira refeio a ss. No sei como lhe dizer, minha adorvel Salena, como achei maantes as pessoas que nos mantinham separados.
        Se ele tinha estado aborrecido, certamente no demonstrou, pensou a moa, lembrando das conversas e dos risos que o tinham cercado em todos aqueles dias.
        - Pedi a seu pai que providenciasse para que nosso casamento fosse secreto, porque achei que no amos querer ouvir os parabns de todo mundo, preferindo 
ficar a ss.
        Fez uma pausa e continuou:
        - No sei como lhe dizer como queria conversar com voc.
        - Sobre... o qu?
        - S pode haver um assunto: o amor, naturalmente!
        A maneira como disse isso fez Salena tomar, apressada, um gole de champanhe, como se achasse que a fortaleceria.
        Ele falava em ingls e, como os empregados eram franceses, a moa esperou que no entendessem. Mas no havia dvida quanto  nota apaixonada da voz e  expresso 
nos olhos do prncipe.
        - Apaixonei-me por voc assim que a vi, e disse a mim mesmo que seria minha. - Seus olhos estavam fixos no rosto dela. - Voc era to jovem, to inocente, 
to desejvel, mas jurei que ningum e nada se colocaria entre ns. E, deixe-me dizer-lhe uma coisa, Salena: sempre consigo o que quero.
        Havia agora um fogo ardente naqueles olhos e a voz tinha um tom profundo, que pareceu a ela quase que o rosnado de um animal.
        - Jamais conheci um russo, antes. Espero que me fale da Rssia e de seu lar. 
        - A Rssia est longe, e ns estamos perto um do outro. Isso  mais importante, agora.
        - Mas  claro que estou interessada em seu pas e, naturalmente, em seu povo.
        Salena hesitou por um momento e continuou:
        - Ouvi dizer que h muito sofrimento na Rssia. E pobreza.
        -  este o tipo de histria ridcula espalhada por pessoas que no conhecem o nosso grande pas. Talvez, um dia, voc possa ver por si mesma. Por enquanto, 
temos coisas mais interessantes para conversar.
        Salena sentiu alvio, quando ele disse "talvez". Significava que no pretendia lev-la para a Rssia; pelo menos, no momento. Significava tambm que ela 
no perderia contato com o pai, e j era um consolo saber que ele no ficaria muito distante.
        Salena tinha visto o Hotel de Paris, quando visitou o cassino, e sabia que o pai ia gostar de fazer o papel de anfitrio, quando no era ele que pagava a 
conta.
        - Em que est pensando? - perguntou o prncipe.
        - Em papai.
        - No precisa se preocupar com ele. Espero que seu pai lhe tenha dito que cuidei dele.
        - O senhor foi muito bom.
        - Acha mesmo? E tambm fui bom para voc?
        - Muito bom. Estou muito... grata. Ainda no lhe agradeci o anel.
        Estendeu a mo ao dizer isso, e o rubi brilhou mais ainda.
         luz dos candelabros, parecia o "olho maligno" sobre o qual tinha lido em livros a respeito do Oriente, pensou Salena, absurdamente.
        - Tenho outras jias para lhe dar. Colares que prenderei  volta do seu pescoo, broches que colocarei no vestido, entre seus seios macios.
        Salena sentiu um calafrio de horror percorrer-lhe a espinha.
        - O senhor  muito... bom - murmurou, novamente.
        -  difcil para mim ser outra coisa com voc. Mas tambm precisa ser boa para mim.
        - Sim...  claro.
        - Vai ser muito excitante ensinar-lhe o amor. Para dizer a verdade, ser a coisa mais excitante dos ltimos tempos.
        A refeio pareceu interminvel a Salena, mas, finalmente, acabou. Ento, o prncipe fez uma pergunta brusca a um dos criados.
        - Ele est esperando, Alteza - respondeu o homem.
        O prncipe ofereceu o brao a Salena, que aceitou como se fosse para a guilhotina. Pensou que era assim que deviam ter se sentido os aristocratas que iam 
ser executados na Place de la Revolution, quando no havia mais esperana de escapar.
        Mas tinham morrido com dignidade e orgulho.
        Salena ergueu o queixo e deixou-se conduzir pelo saguo e ao longo do corredor que ela sabia que levava aos aposentos particulares do dono da casa.
        Ao contrrio dos hspedes, o prncipe dormia no mesmo andar do salo, e o pai de Salena lhe havia dito que os aposentos davam para o terrao.
        No fim do corredor, um empregado abriu uma porta. Entraram, e depois o prncipe fez Salena passar por outra porta.
        A moa viu-se num quarto preparado como uma capela. Havia sete lmpadas de prata que ela sabia que faziam parte do ritual da igreja ortodoxa russa. Diante 
do altar, estava um padre de barba comprida, com um enorme crucifixo sobre as vestes pretas.
        A capela estava iluminada apenas por velas. Havia no ar um pesado cheiro de incenso e via-se tambm uma profuso de flores, todas brancas.
        O prncipe e Salena se ajoelharam em duas almofadas de cetim branco. O padre comeou o que pareceu uma longa orao, mas, como falava em russo, ela no tinha 
noo do que dizia. Quando terminou a orao, o prncipe pegou a mo da noiva e tirou o anel de rubi para colocar em seu lugar uma aliana de ouro.
        Depois, o padre colocou a mo sobre as dos noivos, abenoando-os. O prncipe levantou.
        - Agora, estamos casados, Salena - disse, levando-a embora, com impacincia.
        Andaram pelo corredor, e ele abriu uma porta que dava para uma saleta espaosa e bonita.
        - Voc agora  minha mulher. Finalmente, posso lhe falar de meu amor, sem sermos interrompidos.
        - Posso primeiro ver... o seu quarto? Nunca... estive l. Percebendo que ela queria escapar, o marido disse, com um sorriso:
        - Deixe-me mostrar-lhe o seu quarto. Neste momento,  mais importante para ns do que qualquer outro.
        Como nada tinha a dizer, Salena acompanhou-o, passando por outra porta e entrando num aposento grande, com largas portas-janelas que davam para o terrao.
        Podia ver, l fora, no jardim, a fonte brilhando atravs das luzes habilmente escondidas no meio das flores.
        As estrelas brilhavam no cu, mas ela achou difcil olhar para outra coisa alm da cama grande que, em sua imaginao, parecia encher o quarto.
        Tinha um dossel de seda, a parte de cima do lenol estava virada, e a moa no ousava pensar no que isso significava.
        - Para que esperar mais? - disse o prncipe. - Vou tocar a campainha para chamar sua criada. Depois, quando voc j estiver na cama, voltarei e ficaremos 
a ss.
        Tocou a campainha. Como se estivesse  espera da chamada, apareceu a empregada que tinha cuidado de Salena desde sua chegada  vila.
        O prncipe beijou a mo da noiva, dizendo:
        - No me faa esperar muito, minha bela.
        Voltou para a saleta, os brilhantes da camisa reluzindo com o movimento.
        - Sua Alteza est impaciente - disse a empregada.
        Tirou a grinalda e o vu de Salena, abrindo-lhe o vestido nas costas. Ela mal notou o que acontecia, at ver que estava usando uma camisola to complicada 
que mais parecia um vestido de baile. Confeccionada com a mais delicada cambraia, tinha aplicaes de renda valenciana verdadeira. A mesma renda, s que mais larga, 
enfeitava a barra e os punhos.
        - Deixe-me escovar os cabelos de Vossa Alteza - disse a criada.
        Salena dirigiu-se para a penteadeira, como se no conseguisse mais pensar e devesse fazer maquinalmente o que dela era esperado.
        Quando sentou, viu uma carta apoiada em suas escovas e reconheceu a letra do pai.
        Abriu e leu:
        "Minha querida,
        "Escrevo-lhe apenas algumas linhas para dizer o quanto a amo e o quanto desejo a sua felicidade. Mande-me um bilhete quando puder dizer que me perdoa e que 
ainda gosta de seu pai muito afetuoso e penitente.
        Cardenham".
        
        Salena leu o bilhete duas vezes, sentindo um aperto no corao. Achou que compreendia o que o pai estava tentando dizer e como ele estava realmente preocupado, 
porque, para salvar ambos, ela teria que fazer uma coisa que detestava. Levantou e disse  empregada:
        - Espere um pouco. Vou escrever um bilhete para meu pai. Talvez no seja muito tarde para algum lev-lo a Monte Carlo.
        - Sim,  claro, Alteza. Ser muito fcil um dos empregados ir levar.
        Num canto do quarto havia uma escrivaninha. Era uma pea bonita, com incrustaes. Salena tentou abri-la.
        - Est fechada - disse  empregada. - Preciso de papel de carta.
        - Deve haver uma chave numa das gavetas. Se no houver, vou pedir papel  governanta.
        - Deixe-me olhar primeiro.
        Abriu uma das gavetinhas e descobriu a chave num dos cantos.
        Abriu a escrivaninha e encontrou dentro um mata-borro, papel de carta e envelopes.
        Puxando o mata-borro, viu duas fotografias emolduradas, encostadas no tinteiro. Pegou uma e examinou.
        Era o retrato de uma mulher atraente, de vestido de noite, usando jias magnficas.
        Salena ficou imaginando quem seria, depois viu a dedicatria, em francs:
        "Para Serge, de sua afetuosa esposa, Olga".
        Ficou olhando para o retrato, atnita.
        Ningum havia lhe contado que o prncipe era vivo. Parecia estranho o pai no ter dito nada.
        Havia outro retrato e, sem refletir muito, ela o pegou.
        Era a mesma mulher; dessa vez, num grupo, com quatro crianas, a mais velha parecendo ter dezesseis anos.
        A dedicatria era na mesma letra.
        "Ao querido Serge, de Olga e de sua famlia afetuosa. Natal, 1902"
        Salena ficou olhando o retrato durante o que pareceu um longo tempo. Depois, lentamente, como se ela tateasse num nevoeiro, a explicao surgiu como uma 
voz longnqua. O mistrio sobre o casamento, a insistncia do pai em que ela estaria garantida, acontecesse o que acontecesse no futuro, a maneira com que tinham 
impedido que falasse sobre o casamento a algum que pudesse lhe revelar a verdade...
        Lembrou vagamente de ter ouvido dizer que os aristocratas russos que vinham a Monte Carlo deixavam as esposas em casa, para poderem se divertir como solteiros. 
Lembrou tambm, de repente, que, na cerimnia dos casamentos russos, era costume segurarem coroas acima das cabeas dos noivos. Isso no tinha acontecido no casamento 
daquela noite, e desconfiou de que o padre era um impostor, ou que a cerimnia que tinha realizado no era um casamento verdadeiro.
        Sem poder fazer um movimento, ficou olhando para o retrato das quatro crianas e da mulher de rosto atraente. Atrs dela, a empregada perguntou, assustada:
        - Que aconteceu, 

Alteza? Alguma coisa a perturbou?
        - Estou... bem - respondeu Salena, aps um momento. - Pode ir.
        - Mas, Alteza, os seus cabelos!
        - Faa o favor de sair!
        - Ficarei esperando que me chame, Alteza.
        Salena esperou que a empregada fechasse a porta e levantou, ainda olhando para o retrato.
        Poderia ter sido muito tempo, poderiam ter sido apenas segundos, antes que a porta se abrisse e o prncipe entrasse no quarto.
        Usava um roupo fino, em estilo oriental, muito em moda no sul da Frana. Sua elegncia havia desaparecido. Era apenas um homem de meia-idade, pesado. S 
os olhos eram os mesmos, e o ardor da paixo neles surgiu, quando notaram o corpo de Salena, coberto apenas pela camisola transparente.
        - Est pronta para mim, minha bela esposa?
        - Sim, estou pronta para voc. Quer fazer o favor de explicar isto?
        Mostrou-lhe a fotografia e viu o prncipe ter um sobressalto. Depois, uma expresso taciturna substituiu a excitao.
        - Onde  que encontrou isso? Quem lhe deu?
        - Ningum. Encontrei na escrivaninha.
        - Os idiotas! Os imbecis! - Arrancou o retrato das mos de Salena e atirou-o num canto. - Isso no nos diz respeito!
        - Diz respeito a mim. No estou casada com voc. Sabe que no estou.
        - Que importncia tem isso? Eu a amo e vou ensin-la a me amar.
        - Acha realmente que eu permitiria que tocasse em mim, agora que sei que estava apenas fingindo tornar-me sua esposa?
        - J lhe disse que isso no tem importncia. Vou tomar conta de voc. Ter o dinheiro que quiser, mais jias do que poder usar...
        - No! Voc tem uma esposa. Tem filhos.  pecado e  errado dizer tais coisas a mim, quando pertence a eles.
        - Perteno a voc e voc me pertence. Adiantou-se para Salena e ela gritou:
        - No me toque! Vou embora, agora! Vou procurar papai.
        - Acha que seu pai quer saber de voc? Ele est muito satisfeito com o que lhe paguei. E voc tambm logo ficar satisfeita, minha pombinha.
        - No, no!
        Tentou fugir, mas o homem a agarrou e puxou-a para mais perto. Lutou freneticamente. Era pequena e delicada, mas, mesmo assim, era impossvel ao prncipe 
segur-la. Salena o estava machucando e ele a soltou.
        - Vejo que precisa ser tratada como uma camponesa russa. Saber, ento, quem  o senhor.
        Virou as costas e dirigiu-se para a saleta.
        Salena estava to ofegante, to grande tinha sido o esforo da luta, que por um momento no percebeu que ele a deixara.
        Olhou, incrdula, para o outro lado do quarto; mas quando se dirigia para a porta que dava para o corredor, ele voltou.
        Os lbios do homem tinham um sorriso cruel, sua expresso era to ameaadora que ela ficou paralisada. Depois, viu que tinha na mo um chicote comprido e 
fino.
        Olhou para ele, em silncio, vendo-o se aproximar, mas quando levantou o brao foi que Salena gritou e tentou fugir.
        Tarde demais!
        O prncipe atirou-a na cama e, no momento seguinte, sentiu o chicote ferir-lhe os ombros. Ela gritou, e, depois de ter sido atingida trs vezes, conseguiu 
levantar e escapar.
        Ele agarrou as costas da camisola e um pedao do tecido ficou em suas mos, enquanto Salena corria para a porta que dava para a saleta. Tropeou, e s no 
caiu porque conseguiu se agarrar  escrivaninha. Sentiu ento qualquer coisa dura sob os dedos. Mas, antes que percebesse o que era, o prncipe a agarrou, carregou-a 
at o quarto, atirando-a de novo na cama, de bruos.
        O rosto de Salena estava enterrado no travesseiro e, quando ela procurou respirar, o chicote novamente golpeou suas costas. O prncipe batia sem piedade, 
cada golpe queimando a pele delicada, at quase reduzir a vtima  inconscincia.
        Depois, quando os gritos dela cessaram, ele a virou, com um grunhido de satisfao, respirando pesadamente.
        Estava completamente desamparada, quase inconsciente, na cama, de olhos fechados.
        Na mo direita, escondida entre as dobras da camisola, segurava a faca de cortar papel, que, sem querer, tinha apanhado na escrivaninha. Com a dor, Salena 
apertava o cabo com fora e, quando o prncipe a virou de costas, a ponta da lmina ficou para cima.
        O homem no viu a faca.
        Com uma exclamao de triunfo, atirou-se sobre ela, e a faca furou-o no estmago.
        Ele soltou um grito rouco, saindo de cima dela e agarrando a faca.
        - Voc me matou! Chame um mdico! Salve-me... Oh, Deus, salve-me! Salena sentou na cama e viu o prncipe seminu a seu lado, agarrando o cabo da faca incrustado 
de pedrarias, o sangue jorrando do ferimento e manchando o lenol.
        - Voc me matou! Voc... me matou! Socorro! Socorro!
        O ltimo grito foi sufocado. Diante dos olhos assustados de Salena, o homem estava morrendo.
        Lentamente, como se no compreendesse que estava livre para agir, ela saiu da cama.
        Com um grito apavorado, saiu para o terrao, pela porta-janela.
        Viu a fonte brilhando l embaixo e, sem saber o que fazia, desceu os degraus que levavam ao jardim.
        Seus ps descalos no faziam nenhum som no mrmore branco. Atravessou o gramado, passando pela fonte e correndo por entre as rvores, at chegar  ponta 
do promontrio.
        Hesitou apenas um momento, olhando para as ondas, l embaixo, que batiam nas rochas cinzentas.
        Atirou-se na gua, sentiu o choque de espuma fria.
        Depois comeou a nadar desesperadamente, loucamente, mar adentro...

CAPTULO III


        O duque de Templecombe estava ganhando e a pilha de luses de ouro  sua frente crescia a cada virada de carta.
        Muitas das mulheres que observavam os jogadores de outras mesas tinham vindo postar-se atrs dele e davam gritinhos deliciados, todas as vezes que ganhava.
        Havia ali mais ou menos cinqenta hspedes do gro-duque Boris, nas quatro mesas de jogo colocadas no salo elegante que dava para o jardim da vila.
        Situado no alto de um rochedo, o palcio oferecia uma vista magnfica da baa. Mas ningum estava interessado em outra coisa, a no ser nas cartas, e, quando 
o duque ganhou de novo, um murmrio excitado percorreu os espectadores e at mesmo os adversrios.
        O homem sentado ao lado do duque, que perdera a noite toda, reclinou-se na cadeira com ar exasperado e disse:
        - Infeliz no jogo, feliz nos amores!
        - Isso fez com que o duque lembrasse de Imogen, e olhou  volta para verificar se a moa estava no lugar de costume perto dele.
        Mas no havia sinal dela, e o duque lembrou vagamente de que, algum tempo antes, a vira sair por uma das largas portas-janelas que se abriam para o jardim.
        Embora no tivesse muita certeza, teve a impresso de que o gro-duque a acompanhava, e, por um momento, uma ruga apareceu entre seus olhos.
        O gro-duque era conhecido pelo fascnio que exercia sobre as mulheres. Isso, no s por ser imensamente rico e generoso, mas tambm por ser um homem muito 
atraente, com um charme que as mulheres achavam irresistvel.
        O duque lembrava que, quando se dirigiam para a vila, Imogen tinha dito que achava o anfitrio encantador e que teria prazer em rev-lo. Ficou um pouco irritado 
porque no queria que Imogen Moreton pensasse em outro homem, a no ser ele, e, principalmente, naquela noite.
        Quando viajavam em seu iate, de Marselha para Monte Carlo, o duque resolveu que seus dias de celibato estavam no fim e que casaria com lady Moreton, como 
todo mundo esperava.
        O marido de Imogen tinha morrido na Guerra do Ber. Como havia casado muito jovem, ela estava agora, aos vinte e cinco anos, no apogeu de sua beleza.
        Os parentes do duque insistiam para que casasse, e era de fato um milagre que at agora, aos vinte e sete anos, ainda no tivesse sido empurrado para o altar 
por alguma me calculista.
        Ele havia escapado a todas as ciladas, a todos os engodos, tendo desde cedo resolvido que no deixaria que o levassem ao casamento, a no ser quando estivesse 
disposto a isso.
        As mulheres o adulavam e, como seu nome era antigo e respeitado, sua companhia era procurada no s pela gente da sua idade, como tambm por estadistas, 
polticos e homens importantes mais velhos do que ele. Era amigo do prncipe de Gales, antes que este se tornasse rei, e um visitante sempre bem-vindo ao Palcio 
de Buckingham.
        Durante muito tempo tinha se perguntado se Imogen, sua amante h mais de um ano, seria o tipo de esposa que lhe convinha. Admirava a beleza da moa, tinham 
os mesmos interesses e o mesmo crculo social.
        Era muito importante, na opinio do duque, que combinassem nas coisas do dia-a-dia e, alm do mais, achava-a muito desejvel.
        
        Um grande grupo de amigos tinha vindo com eles de Londres para Monte Carlo, mas partira naquele dia e outro devia chegar amanh. Isso significava que naquela 
noite, quando voltasse para o iate, o duque teria Imogen s para ele e a pediria em casamento.
        Sabia que era isso que ela mais desejava e tinha tambm certeza de que o amava como homem. Ao mesmo tempo, um trao de cinismo nele lhe dizia que Imogen 
no estaria to interessada em casamento, se a posio do futuro marido fosse menos importante.
        Em todo caso, pensou, poderia um homem ou uma mulher serem considerados separadamente de seu ambiente, de sua famlia?
        Era impossvel perguntar: "Voc me amaria, se eu no fosse um duque?" Ou ento: "Eu a amaria, se ela no fosse bonita?"
        O importante era serem, ambos bem-nascidos, pertencendo a famlias que apareciam em livros histricos.
        Histrias de Cinderela eram apenas para criadas e colegiais que liam romancecos e, por conseguinte, imaginavam que um prncipe encantado cairia do cu para 
torn-las suas esposas.
        - Imogen e eu vamos combinar bem - disse o duque a si mesmo. - E minha me e a sociedade ficaro contentes.
        Resolveu que uma das primeiras pessoas a quem daria a notcia, quando voltassem para casa, seria o rei. Sua Majestade gostava de imogen porque era bonita, 
e algumas vezes chegou a insinuar que ela seria uma esposa adequada.
        Falarei com ela hoje  noite, pensou o duque, quando se dirigiam para a vila do gro-duque.
        Mas agora Imogen havia desaparecido, e achou estranho que ainda no tivesse voltado do jardim. Levantou, impaciente.
        - Voc no vai sair, vai? - perguntou o homem a seu lado. - No, no meio de uma mar de sorte?
        O duque no respondeu, mas, deixando o dinheiro na mesa, atravessou o salo e saiu para o jardim. No se preocupava a mnima que seu comportamento fosse 
considerado estranho ou que comentassem. Em todo caso, sempre comentavam o que ele fazia, e, se queria parar de jogar, isso era assunto s dele.
        O jardim da vila do gro-duque era muito florido e muito bonito. Na realidade, um dos mais famosos da Cote d'Azur. Havia no ar o perfume das flores, ouvia-se 
o murmrio de uma cascata: ptalas caam silenciosamente das rvores na grama aveludada.
        Mas o duque no notou nada disso. Estava  procura do vestido vermelho que Imogen usava, combinando com o colar de rubis e brilhantes que ele lhe dera, antes 
de sarem da Inglaterra.
        O jardim era um emaranhado de arbustos, caminhos sinuosos, tufos de flores e bancos confortveis.  O lugar parecia deserto... E, ento, ele a viu.
        No poderia haver engano quanto  cor do vestido vermelho contra os pilares brancos de um pequeno templo grego, no fim de um gramado cercado de flores. O 
duque parou e viu o gro-duque passar os braos em volta da cintura da moa e pux-la para mais perto.
        Ela no resistiu. Pelo contrrio, ergueu avidamente a boca para encontrar a dele e, quando o homem a beijou, ps os braos em seu pescoo.
        Era a imagem do casal apaixonado, e a expresso taciturna do duque se acentuou. Depois, com um ltimo olhar para os dois, ele se afastou.
        No voltou para a vila, dirigindo-se atravs do jardim para um porto que dava para a estrada. No levou mais do que alguns segundos para localizar sua carruagem.
        Os criados pareceram surpresos ao v-lo. Era ainda cedo, e estavam resignados a esperar por muito tempo, talvez at que raiasse o dia, como era o costume 
em Monte Carlo.
        O lacaio abriu a porta e o duque entrou na carruagem.
        - Para o iate!
        Os cavalos iniciaram a descida pelo caminho sinuoso que levava  baa.
        Dentro da carruagem, o duque ainda continuava taciturno e com uma atitude ameaadora.
        Aqueles que o tinham ouvido falar na Cmara dos Lordes sabiam que, no s era inteligente, mas podia mostrar-se agressivo e determinado, quando estimulado 
por algum assunto.
        Na realidade, foi graas a ele que vrios projetos de lei que os lordes queriam' derrubar haviam sido aprovados, e o primeiro ministro lhe agradeceu profusamente 
a cooperao.
        Os que trabalhavam para ele o consideravam um patro justo e generoso, mas, se achasse que estava sendo lesado ou que um de seus empregados era negligente 
ou desleal, podia mostrar-se implacvel.
        Quando a carruagem chegou ao ponto onde estava ancorado o iate, ao lado de vrios outros, o duque desceu, dizendo ao lacaio:
        - No preciso mais de vocs, hoje  noite.
        Havia um imediato a bordo, e, assim como os empregados da carruagem, ficou admirado por ver o patro voltar to cedo.
        - Boa noite, senhor.
        - Diga ao capito Barnett para zarpar imediatamente.
        - Imediatamente, Vossa Graa? -- Foi o que eu disse!
        O duque dirigiu-se para a proa, ainda taciturno, sem se interessar pelos movimentos dos marinheiros que corriam pelo tombadilho.
        Imaginavam que alguns estivessem dormindo, mas a tripulao estava habituada com suas decises intempestivas. Eram ordens explcitas do duque que o iate 
estivesse sempre pronto a zarpar, mesmo sem aviso prvio.
        Sabia, portanto, que o capito Barnett no ficaria surpreso com a determinao de sarem imediatamente de Monte Carlo e que estaria apenas esperando ordens 
para onde deveria dirigir o barco.
        O duque no esperava por perguntas, mas, mesmo assim, foram feitas por seu criado de quarto, Dalton, que estava com ele desde sua infncia.
        - Peo desculpas a Vossa Graa,  mas sabe que lady Moreton no se acha a bordo?
        - Sei.
        Foi uma resposta seca; ainda assim, o criado insistiu:
        - As roupas da senhora tambm esto aqui.
        - Sei disso.
        O homem inclinou-se e partiu. Os lbios do duque eram uma linha fina, quando ele olhou para a cidade, na direo da vila do gro-duque.
        Imogen levaria um choque, ele bem o sabia, quando descobrisse que o iate tinha zarpado, levando no apenas suas roupas, como as jias s quais dava tanto 
valor.
        O gro-duque pode lhe dar outras, pensou, raivoso.
        Depois, achou que havia escapado de boa!
        J era bastante mau que uma mulher que dizia que o amava como "jamais amara outro homem na vida" andasse de namoro com um conhecido "pirata" como o gro-duque, 
mas teria sido muito pior se ela e o duque j estivessem casados.
        Pensou agora como foi tolo em acreditar que uma mulher festejada e mimada como Imogen quisesse levar uma vida tranqila e ser fiel a um homem.
        Reconhecia, entretanto, que havia sido um golpe para seu orgulho e seu amor-prprio.
        Estava habituado a ter qualquer mulher pela qual manifestasse o mnimo interesse, vendo-a cair em seus braos, extasiada.
        Quando o iate atravessou a baa, rumo ao Mediterrneo, havia em seus lbios um sorriso cnico.
        Soprava agora uma brisa suave e agradvel. Quando resolveu ir dizer ao capito para onde queria ir, teve a sbita sensao de que era delicioso estar sozinho. 
Havia muito tempo que se via constantemente cercado por pessoas barulhentas, que riam e conversavam. Templecombe House, em Londres, estava sempre cheia no s de 
amigos, como tambm de parentes, pessoas que achavam que tinham o direito de se hospedar ali, quando vinham do campo.
        E Combe, em Buckinghamshire, com seus inmeros aposentos era grande demais para ficar vazia: havia sempre muitos hspedes e festas.
        Agora que estava sozinho, o duque achou que era uma situao muito agradvel, que ia procurar aproveitar ao mximo. Havia muitos livros para ler, e teria 
chance de pensar em si mesmo e em seu futuro.
        O iate estava agora suficientemente longe de Monte Carlo para que pudesse apreciar as luzes brilhantes da cidade, que se encontravam no cassino e subiam 
pelo morro atrs dele.
        Era muito belo, mas o duque sabia que aqueles que visitavam o principado raramente erguiam os olhos das mesas de jogo. na realidade, s se levantavam no 
fim da tarde, quando a beleza da manh e do dia desaparecera, dispostos a passar mais uma noite nas salas de jogo.
        Tem um encanto falso; to falso como Imogen, pensou. Quanto mais depressa a esquecesse, melhor. No queria lembrar da repulsa e da clera que sentira pelo 
comportamento da moa. Desde menino, jamais reconhecia uma derrota, fazendo um esforo para esquecer qualquer humilhao que tivesse sofrido na escola.
        Era um orgulho enraizado nele, devido a uma larga linhagem de antepassados ilustres, que o ensinara a no permitir que outras pessoas abusassem dele, a no 
ser que isso fosse importante para sua felicidade.
        Era uma idia incutida pelo pai, que lhe contou que um amigo tinha escrito os nomes dos inimigos num papel e fechado a lista a chave, numa gaveta. Anos mais 
tarde, pegou de novo a lista e descobriu que, em quase todos os casos, no lembrava do que aquelas pessoas haviam feito, ou porque as considerava inimigas.
        Este caso impressionou o duque, e foi isso que tentou fazer, a vida inteira.
        Nunca d a seus inimigos a importncia de pensar neles, era uma das frases favoritas do duque. Agora, no tinha inteno de dedicar um pensamento a Imogen.
        Diria a Dalton que empacotasse as roupas e as jias dela e as guardasse no poro. Quando chegasse a Londres, faria com que fossem entregues em casa de Imogen, 
e estaria tudo terminado. Ponto final.
        Foi agradvel enquanto durou. Isso era inegvel, e realmente chegou a pensar que Imogen fosse diferente das outras mulheres. Pensou que o amor significasse 
alguma coisa para ela, diferente das lisonjas vazias que faziam parte da vida social dos que viviam  volta do rei.
        Quando Eduardo era prncipe de Gales, as beldades pelas quais se interessara tinham sido comentadas de uma ponta  outra do Pas. No havia um homem na rua 
que no soubesse do interesse dele por Lily Langtry, pela condessa de Warnick e por meia dzia de outras mulheres bonitas.
        O duque sempre admirou o comportamento impecvel da rainha Alexandra, dinamarquesa de nascimento. Ela nunca vacilou em sua lealdade e devoo ao marido, 
no demonstrando em pblico que estava perturbada ou irritada com as constantes infidelidades do rei.
        O duque achava que, de certo modo, ele prprio sempre esperou que sua esposa fosse se comportar da mesma maneira, mas agora sabia que, com Imogen, isso teria 
sido impossvel.
        A moa tinha conscincia exagerada de sua beleza, um desejo intenso de ser admirada, sendo fraca demais para ignorar a admirao de outro homem, mesmo que 
sua reputao fosse pssima, como a do gro-duque.
        O duque imaginou-se no futuro, querendo saber se a esposa lhe era infiel, sempre tendo suspeitas e sentindo medo de confiar nela.
        - Se  isso que me espera, ento, que todas as mulheres se danem! Nunca casarei.
        Resolveu ir para o salo e tomar um drinque. Sabia que uma garrafa de champanhe estaria  sua espera, assim como sanduches de pat de fgado bem fininhos, 
preparados para o caso de algum sentir fome ao regressar para bordo.
        Quando voltou para o convs, ouviu algum falar alto na ponte, num tom que indicava que alguma coisa anormal estava acontecendo.
        O capito olhava para o mar com um binculo.
        - Que aconteceu?
        - No estou certo, Vossa Graa. O vigia notou alguma coisa no mar que lhe pareceu um corpo.  branco... Puxa,  um corpo!
        - Deixe-me olhar.
        No havia dvida de que qualquer coisa boiava na gua e era certo de que era branca. Teve quase certeza de distinguir um rosto.
        -  melhor mandar descer um bote, para ver se a pessoa est viva.
        Enquanto falava, ocorreu-lhe que podia ser algum que se suicidara por ter perdido todo o dinheiro no jogo. Era este o tipo de histria contada a respeito 
de Monte Carlo, embora com algum exagero.
        O iate parou e os marinheiros desceram um bote.
        No ltimo momento, o duque resolveu acompanhar seus homens. Achou mais prudente, caso o corpo estivesse na gua h muito tempo. Nesse caso, seria intil 
e muito desagradvel traz-lo para bordo. J tinha visto afogados, e os rostos inchados e os corpos decompostos podiam virar o estmago do mais duro dos marinheiros.
        No havia luar, mas as estrelas brilhavam no cu. Mesmo assim, era difcil ver claramente, at chegarem ao lado do corpo. Com surpresa, o duque percebeu 
que se tratava de uma criana, ou de uma mulher muito jovem, usando um traje branco. Os braos estavam abertos, a cabea para trs, e no apenas estava viva, mas 
era uma nadadora experiente, para poder boiar com tanta facilidade.
        O bote aproximou-se mais ainda. Os marinheiros levantaram os remos e aguardaram as instrues do patro.
        - Pegue a mo dela - disse o duque.
        Sua voz devia ter despertado a ateno da moa, pois ela abriu os olhos e deu um grito. Depois, virou-se e tentou nadar para mais longe.
        Mas foi tarde, porque o marinheiro j havia agarrado sua mo.
        - Largue-me! Largue-me! Quero morrer!
        Lutou desesperadamente e, tendo apanhado o marinheiro de surpresa, conseguiu se libertar.
        Talvez pelo fato de estar muito fraca, afundou, e por um momento o duque pensou que a tivesse perdido.
        Mas a moa subiu de novo  tona, e agora era ele que estava mais perto. Conseguiu segurar-lhe o brao e depois peg-la pelos ombros.
        A moa comeou a protestar, mas desmaiou. Embora fosse frgil, foi difcil ser iada para o bote. S ento o duque percebeu que era na realidade uma mulher 
muito jovem.
        Voltaram ao iate. Sem perda de tempo, o duque, seguido por Dalton, levou a moa para um dos camarotes vazios.
        Rapidamente, Dalton estendeu uma poro de toalhas no cho.
        - Posso cuidar disto, Vossa Graa - disse Dalton.
        - V buscar conhaque e mais toalhas!
        - Perfeitamente, Vossa Graa.
        O duque examinou a mulher. Usava uma camisola muito enfeitada e cara. A renda dos enfeites era verdadeira. E tinha uma aliana no dedo.
        Ficou imaginando se teria sido atirada de um iate por algum marido violento. Era inconcebvel que tivesse nadado desde a costa. Muito poucas mulheres que 
conhecia sabiam nadar. Mas, viesse ela de onde viesse, havia ali um mistrio.
        No s era muito jovem, mas tambm muito bonita, apesar dos cabelos molhados e da palidez.
        Tirando o palet do traje a rigor, justo demais para demonstraes de atletismo, o duque pegou uma toalha e achou que a primeira coisa a fazer era tirar 
a camisola ensopada. Era aberta na frente. Desabotoou vrios botes de madreprola. Depois, cobrindo o corpo da moa com um lenol, puxou a camisola para cima.
        No havia dvida de que tinha um corpo muito bonito. Poderia ter sido Afrodite surgindo das ondas.
        - Estou sendo potico - disse o duque, quase com raiva. Estava detestando todas as mulheres, at aquilo acontecer. Agora no podia deixar de sentir curiosidade.
        Puxou a camisola para cima da cabea da moa para tir-la completamente, e notou que estava rasgada nos ombros. Ento, viu as costas da desconhecida...
        Ficou olhando incrdulo, achando difcil acreditar que aquilo no era uma iluso de tica. Ali estava, ento, uma explicao para ela ter se atirado no mar. 
Havia marcas de chicote, golpes cruzados rasgando a pele em vrios pontos que sangravam.
        O duque tirou a camisola molhada e, ouvindo os passos de Dalton, deitou a moa no cho e cobriu-a apressadamente com outro lenol.
        - Aqui est o conhaque, Vossa Graa. E duas toalhas. Vou buscar mais algumas.
        - Faa isto.
        Delicadamente, o duque esfregou os cabelos de Salena. Viu que no estavam totalmente soltos, como a princpio pensou, mas com alguns grampos, como se estivessem 
presos quando ela entrou na gua.
        Foi uma coisa que o deixou perplexo.  medida que os cabelos ficavam mais secos, percebeu que era loira e ficou imaginando qual seria a cor dos olhos.
        - Azuis, creio eu - disse, baixinho.
        Salena ainda estava inconsciente, quando Dalton voltou.
        - Acho melhor colocarmos a jovem na cama, antes de tentarmos reanim-la.
        - Boa idia, Vossa Graa.
        - Sugiro que voc estenda uma das toalhas de banho na cama e v buscar algumas bolsas de gua quente. Ela est muito fria.
        Dalton saiu apressadamente. S ento o duque pegou Salena nos braos. Achava que a nudez da moa no devia ser vista por mais ningum, e, ao carreg-la para 
a cama, ficou impressionado com sua leveza.
        - Como  que um homem pde bater numa coisinha to linda? Depois ficou imaginando se o marido a teria apanhado cometendo uma infidelidade.
        Mesmo assim, castig-la de maneira to cruel e to brutal era coisa que nenhum homem decente faria.
        Colocou-a na cama, cobriu-a com uma toalha e depois com um lenol e cobertores.
        O rosto da moa estava to branco como o lenol. Seria um erro permitir que continuasse assim. Talvez entrasse em estado de coma.
        Passando o brao sob a cabea dela, ergueu-a e disse, em tom firme:
        - Acorde! Acorde e beba isto!
        Tinha a impresso, embora no pudesse ter certeza, de que ela estava fazendo um esforo para ficar desligada de tudo.
        As plpebras da moa estremeceram. Depois, quando sentiu o copo em seus lbios, ela virou a cabea para o lado.
        - Beba!
        Como se estivesse fraca demais para desobedecer, Salena engoliu algumas gotas de conhaque.
        Prendeu a respirao... o duque pensou que ela o estivesse desafiando e forou-a a tomar mais algumas gotas. A moa tentou lutar, movendo os braos.
        - Fique quieta e beba!
        - No...
        O duque conseguiu fazer com que tomasse mais algumas gotas. Depois, como que contra a vontade, Salena abriu os olhos.
        Olhou para o homem com expresso de horror. Ele sentiu que ficava tensa e soube que era de medo.
        - Est tudo certo. Voc est s e salva.
        - N...o. No... Deixe-me... morrer!
        -  tarde demais para isso.
        Delicadamente, colocou de novo a cabea de Salena no travesseiro. Ela ainda o olhava apavorada. Mas o duque no tinha certeza se o estava vendo, ou vendo 
alguma coisa que a assustava antes de entrar na gua.
        - Voc est em absoluta segurana. Agora, precisa me dizer de onde veio e para onde quer que a leve.
        Achou que ela no tinha entendido e perguntou:
        - Suponho que comece me dizendo o seu nome?
        - Sa...le...na...
        - E seu sobrenome?
        Ela deu um gemido to fraco que parecia o de uma gatinha recm-nascida.
        Fechou os olhos e ficou de respirao suspensa, como se quisesse voltar  inconscincia. O duque percebeu que ela tremia. Ficou imaginando como deveria tratar 
de algum numa situao daquelas.
        Nunca pensou que fosse possvel uma mulher ficar to assustada, to apavorada.
        No era de espantar, levando-se em considerao a maneira como havia sido tratada, embora ele pensasse que talvez no fosse s a surra que a amedrontava, 
mas alguma outra coisa.
        O duque estava em silncio. Como se estivesse curiosa para saber se ele havia partido, Salena abriu os olhos. Viu-o ento, e de novo pareceu se encolher, 
afundar na cama e tentar desaparecer.
        - Ningum vai machuc-la. No h do que ter medo, aqui. No soube se ela entendeu. Havia em seus olhos uma expresso de horror e as pupilas estavam to dilatadas 
que ficaram negras.
        Dalton apareceu com duas bolsas de gua quente.
        - Vou colocar uma nos ps da moa, Vossa Graa - disse, dando a outra ao duque.
        Ele segurou as cobertas, delicadamente, e colocou a bolsa ao lado do corpo de Salena, mas em cima da toalha que a cobria.
        - Vai se sentir mais quente com isso. Devia estar muito frio, l no mar.
        Notou que ela se contraiu, quando a tocou. Fosse l o que tivesse acontecido, certamente fez com que ficasse com medo dos homens.
        Era um pensamento interessante, e ficou observando-a, notando o corpo infantil, os olhos enormes e bem separados, a curva perfeita da boca trmula.
        - Seja quem for o homem que a surrou,  um animal, pensou. Seria um prazer pagar na mesma moeda!
        Dalton estava apanhando as toalhas e a camisola do cho. Dirigiu-se para a porta, mas parou, de repente, dizendo:
        - Vossa Graa acha que devo trazer uma das camisolas de lady Moreton? Vai ficar folgada demais, mas tenho certeza de que a mocinha se sentir mais confortvel.
        - Boa idia, Dalton. Mas no vestirei a moa. Deixarei a camisola aqui na cama. Traga tambm um robe e um par de chinelos.
        Notou, com certo cinismo, que no tinha remorsos de dispor das roupas de Imogen, uma vez que a maior parte tinha sido paga por ele.
        Salena estava de plpebras semicerradas, mas o duque tinha certeza de que o observava.
        Era como se fosse um animal feroz que pudesse atac-la e ela tivesse medo de fechar os olhos, no querendo ser apanhada de surpresa.
        Afastou-se da cama o mais possvel e disse, calmamente:
        - Precisa me dizer o que quer fazer. Meu iate voltou para socorrer voc, mas preciso dizer ao capito para onde deve ir.
        Falou lentamente, como que a uma criana. Esperou um pouco e Perguntou:
        - Quer voltar para Monte Carlo?
        - No! No!
        No havia dvida quanto ao terror nessas palavras.
        - Ento, para onde devemos ir?
        - Para... longe.
        - Est certo. Vamos para longe de Monte Carlo. Como voc no parece ter nenhuma preferncia, vou lev-la comigo para Tnger, onde possuo uma vila. Levaremos 
alguns dias para chegar l. Talvez, antes disso, possa me contar alguma coisa a seu respeito.
        Salena no respondeu, e o duque se dirigiu para a porta.
        - Procure dormir. Tudo parecer melhor, quando amanhecer.
        A moa no respondeu, mas o observava. Quando saiu do camarote, ele apagou as luzes, com exceo da que ficava junto da cama.
        Dirigiu-se para seu camarote, pegado ao dela, quando lhe ocorreu uma idia. Depois de recuperar totalmente a conscincia, era bem possvel que a moa, que 
parecia querer morrer, tentasse de novo se afogar.
        Em seu atual estado de fraqueza, isso no seria difcil.
        O duque voltou e, de mansinho, puxou o trinco que fechava a cabine por fora. Os trincos haviam sido colocados como precauo contra ladres e tinham um mecanismo 
especial, que impossibilitava que a porta fosse aberta, a no ser por algum que os conhecesse.
        
        Quando o iate estava ancorado numa baa, embora sempre houvesse algum vigiando, o duque sabia que era fcil para um ladro experiente subir a bordo e levar 
o que pudesse encontrar.
        Esses trincos, que ele prprio havia inventado, tornavam os roubos quase impossveis.
        Havia inmeros dispositivos engenhosos no novo iate, fabricado especialmente para ele, com suas especificaes.
        O duque teve prazer em construir o Afrodite e ficou satisfeito com a apreciao dos amigos. Lembrou ento que um novo grupo] de convidados deveria chegar 
a Monte Carlo no dia seguinte, vindo de Londres. Certamente, todos achariam extraordinrio ele no estar l para receb-los.
        Resolveu que a nica compensao que lhes podia dar seria mandar um cabograma de manh cedinho, dizendo que, devido a circunstncias imprevistas, tinha sido 
obrigado a se ausentar, mas todos seriam seus convidados, como hspedes do Hotel de Paris.
        Eram pessoas que tinham hbitos sociais e que no tardariam a descobrir o motivo de sua partida e porque Imogen no o acompanhou.
        
        - Que falem! - resmungou, com raiva.
        Ocorreu-lhe, de repente, que, se soubessem o que estava acontecendo no Afrodite, teriam mais um motivo saboroso para fofocar.
        O fato de salvar do mar uma jovem seminua, surrada brutalmente, despertaria a imaginao desses amigos que ficariam especulando, at descobrir a identidade 
da inesperada passageira.
        Tinha certeza de que nunca a havia visto antes. Se tivesse visto uma criatura to jovem e to bela em Monte Carlo, certamente a teria notado.
        Obviamente, no era pobre; podia ver isso pela camisola cara que usara. Tinha uma aliana no dedo, mas era to jovem que no poderia estar casada h muito 
tempo. Era muito bonita e, entretanto, ou talvez por causa disso, algum homem a aterrorizou a ponto de ficar com medo de todos os homens.
        Temos, certamente, uma coisa em comum, pensou o duque. Atualmente, odeio as mulheres e ela detesta os homens. Sua conversa, se  que conseguirei fazer com 
que fale, ser, sem dvida, muito esclarecedora.
        Foi Dalton quem, no dia seguinte, informou o duque de que sua passageira estava acordada.
        - Levei uma xcara de ch para a moa e perguntei-lhe o que ela desejava para o desjejum, mas pareceu to assustada como ontem  noite.
        - Ela disse alguma coisa?
        - Disse: "Qualquer coisa!" Desse jeito, Vossa Graa! "Qualquer coisa". E tremia, ao falar. Creio que  devido ao choque de ter cado na gua.
        - Sim, creio que sim - concordou o duque, com naturalidade.
        - Leve o desjejum e depois venha falar comigo, Dalton.
        - Muito bem, Vossa Graa.
        Quando Dalton voltou, o duque estava terminando a segunda xcara de caf.
        - Precisamos encontrar alguma coisa para a moa vestir, Dalton.
        - J pensei nisto, Vossa Graa.
        - Pensou?
        - Sim, pensei. Levando-se em considerao que  muito pequena, no poderia usar as roupas de lady Moreton, a no ser com algumas alteraes.
        - Exatamente. Foi o que tambm pensei.
        - Mas lembrei de que o capito tem uma filha de quatorze anos e sei que ele comprou para ela dois vestidos, em Marselha. Bonitos e exatamente do tamanho 
da moa, creio eu.
        - Boa idia, Dalton. Sugira  nossa passageira que, quando se sentir melhor, experimente os vestidos. Qualquer outra coisa de que ela precise, voc pode 
tirar do guarda-roupa de lady Moreton. E diga ao capito que, naturalmente, o reembolsarei. Creio que ele encontrar para a filha roupas igualmente adequadas, em 
Tnger, ou quando voltarmos a Marselha.
        - Direi, Vossa Graa.
        
        Quando foi at a ponte de comando, o duque agradeceu ao capito.
        - Estive pensando que foi uma sorte termos encontrado a moa - disse o homem. - Eu estava me afastando da costa. Mais alguns minutos, e no a teramos visto.
        - No tinha chegado a vez da moa morrer, capito.
        -  estranho que ela tenha querido morrer.
        Lembrando das marcas de chicote nas costas de Salena, o duque achou que conhecia uma boa razo para ela no se apegar  vida, mas no tinha inteno de contar 
isso ao capito ou a quem quer que fosse.
        Quando foi para o salo, antes do almoo, admirou-se por encontrar Salena ali. No pde deixar de notar que, quando ele entrou, a jovem fez um movimento, 
como se fosse fugir. Mas, como ele estava  porta e no havia outra sada, ela apenas se encolheu no canto do sof. 
        - Bom dia. Espero que esteja melhor. Esse vestido lhe vai muito bem.
        Era de fato um vestido muito atraente: branco, enfeitado de bordado ingls.
        - Obrigada... por toda a sua... bondade - disse, Salena, hesitante. - Mas eu queria morrer. S que...
        Interrompeu-se, e o duque a animou a continuar:
        - Que est querendo dizer?
        - Como sei nadar bem, achei difcil me afogar...
        Salena aprendera a nadar em Bath, nos famosos banhos romanos, quando foi para l com a me, que convalescia de uma pneumonia.
        Salena era muito criana na ocasio, e o pai riu ao ver como logo gostou da gua. Feito sapinho, dissera ele.
        Depois disso, sempre tomava banho com os primos, no lago do parque da casa de campo do av, o pai de lady Cardenham. Durante o vero, organizavam competies, 
atravessando o lago a nado, virando de propsito as canoas e fazendo exerccios de salvamento para o caso de algum dia naufragarem no mar.
        Quando fugiu da casa do prncipe, na noite anterior, e comeou a nadar mar adentro, pretendera fazer isso at no agentar mais. Depois, afundaria como uma 
pedra.
        Teria sido o fim. Ningum jamais a encontraria e no haveria acusaes a respeito de seu crime. Nem teria que enfrentar julgamento, priso e, talvez, at 
a morte.
        No podia suportar a lembrana do grito do prncipe, ao dizer que ela o matara, nem a lembrana do sangue jorrando do ferimento no estmago e manchando a 
cama.
        No queria recordar, no queria pensar, mas sabia que seu corpo estava dominado pelo medo.
        Mesmo o fato de olhar para o duque, apenas por ser um homem, fazia com que sentisse uma onda de terror, como a que sentiu quando o prncipe a chicoteou. 
O duque sentou numa cadeira, um pouco afastado de Salena.
        - Ontem  noite, voc me disse o seu primeiro nome. Agora, acho que devemos nos apresentar formalmente. Sou o duque de Templecombe.
        A expresso da moa indicou o que acontecia.
        - J tinha ouvido falar de mim?
        - Ento... este barco ... o Afrodite?
        - Sim,  o nome do iate.
        -  muito bonito.
        Lembrou-se de como o iate lhe pareceu lindo, quando o viu da estrada por onde passava de carruagem, com o pai.
        Naquela ocasio, nem de longe suspeitava do que a esperava. Ao pensar de novo no prncipe, ficou trmula de medo.
        O duque notou a mudana. Nunca tinha conhecido uma mulher com olhos to expressivos, ou que parecesse to frgil e pattica.
        - Espero que goste do meu iate.  novo. Eu mesmo o desenhei, e tenho muito orgulho disso. Tem muitas caractersticas que nenhum outro barco tem. Quando se 
sentir melhor, vou lhe mostrar.
        A expresso amedrontada desapareceu do olhar de Salena, e ela perguntou:
        - Ns vamos voltar para Monte Carlo?
        - Voc disse que no queria voltar, de modo que vou lev-la comigo para Tnger. Eu lhe contei isso ontem  noite, mas acho que estava perturbada demais para 
compreender.
        - Achei que tinha dito isso, mas temi no ter entendido bem.
        - Vamos para Tnger. Tenho uma vila l. Espero que voc a ache to bonita como o Afrodite.
        - Eu... no tenho... dinheiro.
        - Como  minha hspede, isso no tem importncia. Quando chegarmos a Tnger, se quiser ir para algum lugar, posso lhe emprestar o dinheiro necessrio.
        Fez uma pausa e depois disse, cuidadosamente:
        - Talvez, queira se comunicar com sua famlia?
        - No! No!
        Ele j tinha ouvido esse grito antes e notou que ela estava de novo trmula de medo.
        Salena pensou, desesperada, que o pai jamais a perdoaria pelo que fez ao prncipe e que era preciso que ele a julgasse morta.
        S desejava que o pai pudesse guardar o dinheiro que o prncipe lhe dera. Depois pensou que no havia perigo de perd-lo, porque o russo estava morto e no 
poderia reclamar coisa alguma.
        Papai estar bem, mas  preciso que nunca saiba que continuo viva.
        De repente, ocorreu-lhe a idia de que seria impossvel viver no tendo dinheiro e nem para onde ir.
        Sem a mnima inteno de comover o duque, olhou-o com ar splice, juntando as mos como uma criana que pede ajuda.
        - Vejo que ainda est perturbada. Que tal se eu no fizer mais perguntas e voc apenas procurar se divertir? Afinal,  um dia bonito, estamos sozinhos no 
Mediterrneo e ningum sabe que nos encontramos aqui.
        Julgou ver um brilho no olhar dela e continuou:
        - Eu mesmo muitas vezes pensei como seria divertido sumir e comear uma vida nova. Seria como comear um livro novo a respeito de ns mesmos. - Percebeu 
que estava no caminho certo. - Se algum pensou que voc caiu no mar e est  sua procura, vai ficar decepcionado. E deixe-me dizer-lhe que ningum em Monte Carlo 
tem a mnima idia de para onde vou, de modo que no podero me relacionar a voc.
        Sorriu e acrescentou:
        - Est livre. Livre de tudo. At mesmo das coisas que a assustam. Ningum sabe onde est nem o que fez!
        - Isto  mesmo verdade?
        - Tenho certeza que sim.
        - Mas... Deus sabe!
        As palavras foram apenas um murmrio, mas o duque as ouviu.
        - Sim, Deus sabe, mas sempre nos ensinaram que Deus  misericordioso e compreensivo, de modo que lhe asseguro, Salena, que no precisa ter medo.
        Era uma estranha maneira dele falar, pensou. Mas, vendo a tenso abandonar Salena, teve certeza de ter dito a coisa certa. O que aquela criana podia ter 
feito para temer o castigo de Deus, assim como o castigo dos homens?


CAPTULO IV


        O comissrio de bordo veio dizer que o almoo estava pronto e o duque notou que Salena teve um sobressalto quando o viu entrar, fitando-o como se esperasse 
que fosse outra pessoa.
        Fingindo nada ter percebido, levantou, dizendo:
        - Como est um dia quente, achei que podamos almoar no convs.
        Salena acompanhou-o at onde havia duas cadeiras de vime, grandes, cheias de almofadas macias. Fez uma careta ao sentar, por causa dos ferimentos nas costas, 
e olhou para o anfitrio com um arzinho comovente, como se tivesse medo do que ia acontecer em seguida.
        Ele cobriu-a com uma manta e o comissrio colocou na cadeira uma espcie de bandeja com suportes de metal. O duque sentou ao lado dela e riu de sua surpresa.
        -  uma inveno minha. Achei que seria agradvel comer ao ar livre, quando estivesse sozinho, ou apenas com mais uma pessoa para me fazer companhia. Voc 
est estreando a minha criao:  a primeira vez que a vejo em funcionamento.
        -  muito inteligente da sua parte.
        O comissrio colocou sobre a bandeja uma outra, j preparada, com uma toalhinha branca, copos e talheres. Outros empregados trouxeram uma poro de pratos 
deliciosos. Salena achou que era uma maneira original e confortvel de comer.
        Havia um toldo sobre eles, o mar estava azul e muito calmo, ouvindo-se o suave pulsar das mquinas e o grito das gaivotas. Muito diferente, pensou a moa, 
dos almoos barulhentos da vila do prncipe, com os hspedes falando em francs ou em russo. As vozes pareciam tornar-se mais altas,  medida que os copos de cristal 
eram enchidos e reenchidos de vinhos de diferentes qualidades. 
        - Vou tentar convenc-la a tomar uma taa de champanhe - disse o duque. - Acho que vai fazer com que fique novamente corada e feliz.
        Salena queria dizer que isso era impossvel, mas achou que seria indelicado. Quando o champanhe chegou, tomou um golinho. Mas o duque no percebeu, pois 
olhava para o mar.
        - Acho que ali h algumas toninhas. Espero que se aproximem do iate. Sempre achei divertido observar seus malabarismos.
        - Toninhas? Sempre ouvi falar delas, mas ainda no vi nenhuma.
        - So encontradas freqentemente no Mediterrneo.
        - Uma das freiras do convento disse que, em sua terra, no sul da Itlia, os camponeses acreditam que, quando um marinheiro morre afogado, sua alma se transforma 
numa toninha.
        O duque teve certeza de que ela estava pensando que isso teria acontecido com sua alma, se morresse afogada, como pretendia.
        - Muitos povos primitivos que vivem  beira-mar tm essa crena. Nas ilhas Orkneys e Shetland, por exemplo, os habitantes acreditam que as almas dos pescadores 
se transformam em focas, e  por isso que nunca matam esses animais.
        O duque descobriu, ento, outra pea do mistrio da vida de Salena: ela havia estudado num convento.
        Sentiu-se como um arquiplago  cata de vestgios de uma antiga civilizao, ou um ornitlogo atrs de alguma espcie desconhecida de pssaro.
        Nunca, em toda sua vida, esteve sozinho com uma mulher sem que ela se mostrasse interessada por ele como homem, nem que, como Salena, se encolhesse em sua 
presena. Era uma experincia nova e interessante, e percebeu que estava cada vez mais curioso a respeito de Salena.
        Jurou que, cedo ou tarde, descobriria o que a perturbava tanto e quem era. Enquanto isso, falou tranqilamente de coisas  impessoais. Terminado o ltimo 
prato, virou-se para dizer qualquer coisa a Salena e viu que a moa tinha adormecido.
        O comissrio apareceu e o duque ps a mo nos lbios, recomendando silncio. O homem retirou a bandeja com cuidado e em silncio, afastando-se em seguida.
        Outro empregado tirou a bandeja do duque, oferecendo-lhe conhaque, que recusou. Queria aproveitar a oportunidade de observar Salena  vontade.
        O rosto da moa estava virado para ele, a face apoiada numa almofada azul, que lhe acentuava a palidez e o loiro dos cabelos. Assim, de olhos fechados, parecia 
muito jovem e muito vulnervel. Depois, fez um movimento e o duque percebeu que a aliana no estava mais em seu dedo.
        Ficou imaginando se ela a teria tirado e jogado pela vigia, enjoada pelo que havia sofrido, ou se queria apenas dar a impresso de que no era casada.
        Depois, fitando-a, achou que era impossvel ela querer enganar algum. Havia nela alguma coisa de tanta pureza e bondade que seria impossvel acreditar que 
no fosse inocente como parecia.
        Apesar de tudo, quem era ele para julgar? Tinha sido enganado por mulheres antes e, por mais ingnua que parecesse, a verdade era que um homem a havia surrado; 
provavelmente, o mesmo homem que pagara suas roupas.
        Era uma situao extraordinria, esta em que se achava. Teria que refletir seriamente, para resolver como acabar com o medo de Salena e o que fazer a respeito 
do futuro da moa.
        
        Ela era um animal selvagem preso numa armadilha: havia sido to maltratada, que no sabia mais quem era amigo ou inimigo. Precisava primeiro ganhar a confiana 
da moa, antes de poder ajud-la realmente.
        Salena dormia to profundamente que, pelo menos no momento, seus receios tinham sido esquecidos.
        O duque sorriu, pensando que nenhuma das pessoas que estariam fofocando a respeito de sua partida precipitada podia, nem de longe, imaginar o que ele fazia, 
agora.
        Se Imogen ou qualquer outra mulher pela qual havia se interessado no passado estivessem no lugar de Salena, certamente estariam flertando com ele, tentando 
provoc-lo.
        Imaginava que, se demonstrasse at mesmo um mnimo de interesse por Salena, ela ficaria ainda mais apavorada.
        Quase uma hora depois, a moa acordou, com um sobressalto. Olhou para o duque, envergonhada.
        - Desculpe. Peguei no sono.  Foi muito indelicado de minha parte.
        - Mas compreensvel. Estava exausta. Devia passar o dia na cama.
        - Seu criado sugeriu isso, mas eu quis me levantar. Achou que estava com medo de ficar sozinha com seus pensamentos.
        - No Afrodite voc pode fazer o que quiser.
        A moa no respondeu. Ficou olhando para o mar iluminado pelo sol, e o duque pensou que uma das coisas estranhas a respeito de Salena era ela ser to natural. 
Qualquer outra mulher, tendo dormido em sua presena, estaria agora arrumando os cabelos, preocupada com a aparncia. Mas Salena estava quieta, com as mos no colo.
        - Voc s me disse seu primeiro nome.  difcil saber como os criados devem cham-la: senhorita ou senhora?
        As mos dela estremeceram sobre a manta.
        - Eu... no sou casada.
        O duque ergueu as sobrancelhas. Ento, por isso ela havia tirado a aliana? Mas, por que a usava antes? Teria fingido ser a esposa de um homem para poder 
passar um fim de semana ilcito com ele?
        Tal idia combinava to pouco com a aparncia de Salena que o duque a afastou imediatamente.
        Em tom indiferente, disse:
        - Direi aos empregados que voc  a srta. Salena. A no ser que queira me contar o seu sobrenome.
        - F... esqueci.
        As plpebras da moa estremeceram, e o duque soube que no era verdade. Era uma mentira to flagrante, que percebeu que Salena no apenas achava difcil 
mentir, mas considerava isso errado ou, talvez, um pecado. Provavelmente, o resultado de ter sido educada num convento.
        - J esteve em Tnger?
        - No, nunca.
        -  muito bonito. E nessa poca do ano, o clima  perfeito. Houve silncio. Depois, em voz amedrontada, ela perguntou:
        - No pertence aos... franceses?
        No havia dvida de que essa hiptese a apavorava, e o duque a tranqilizou.
        - No. Embora os franceses estejam sempre querendo ocupar algumas partes de Marrocos.
        - Mas, no Tnger?
        - No. E  muito provvel que a Alemanha ou a Inglaterra permitam que a Frana se instale ainda mais na frica do Norte.
        Disse isso para tranqiliz-la, mas estava perplexo por notar que a idia dos franceses dominarem Tnger a deixava to assustada.
        Depois, achou que o homem que a agrediu talvez fosse francs. Ou ento que ela tivesse infringido alguma lei francesa que a envolveria com a polcia.
        Parecia impossvel que aquela criana - pois era difcil pensar nela de outra forma - tivesse feito qualquer espcie de crime, mas no havia dvida quanto 
ao medo que sentia.
        - No quero parecer presunoso, mas tenho uma certa influncia tanto no meu pas quanto no estrangeiro e posso lhe assegurar que, enquanto estiver na minha 
companhia, estar segura.
        Teve a impresso de ver nos olhos dela um brilho de esperana. Mas, depois, Salena sacudiu a cabea.
        - No deve se envolver em nada que prejudique a sua reputao.
        O duque fitou-a atnito.
        - Minha reputao?
        - Pap...
        Ela mordeu o lbio e continuou, apressada, com medo de que ele tivesse notado sua hesitao:
        - Algum me disse o quanto o senhor ... importante.
        Ento, ela tem um pai, pensou o duque, imaginando se ela teria sido agredida pelo pai. Nesse caso, por que a aliana? E que homem, por mais bestial que fosse, 
iria jogar no mar a prpria filha, depois de maltrat-la como Salena havia sido maltratada?
        - Se  verdade que sou importante, como diz, ento, tenho o poder de ajudar as pessoas que esto em dificuldade.  por isso que quero ajud-la, Salena.
        -  muita bondade sua, mas teria sido melhor que me tivesse deixado... morrer.
        - Melhor para voc, ou melhor para mim? - perguntou, em tom despreocupado.
        - Acho que para ns dois.
        - Pois bem, no que me diz respeito, estou muito contente por t-la salvo. E no posso deixar de pensar que foi o destino que fez o Afrodite passar por ali 
naquele momento exato. O capito disse que, mais alguns momentos, voc teria desaparecido de nossa vista! Ento, voc v, Salena, que foi o destino. Ou, como se 
costuma dizer, o dedo de Deus.
        -  muito errado uma pessoa atentar contra a prpria vida. Mas me pareceu no haver outra sada.
        - Foi o que voc pensou, mas, provavelmente, seu anjo da guarda tinha outras idias.
        Salena deu um suspirozinho.
        - Eu devia lhe ser muito grata, mas no sei o que fazer, agora.
        -  muito simples: procure apenas aproveitar a viagem no Afrodite. Posso lhe garantir que muita gente gostaria de estar no seu lugar.
        - Sei disso. E tenho vergonha de impor minha presena...
        - Acho que fui eu que a forcei a aceitar minha hospitalidade. Para ser exato, foi com relutncia que voc aceitou ser minha hspede.
        Julgou ver um leve sorriso nos lbios da moa e continuou:
        - Embora isso seja uma pretenso, sempre achei que as pessoas aceitavam meus convites avidamente. Portanto,  uma mudana eu praticamente raptar algum para 
poder gozar de sua companhia.
        -  muita bondade sua. Sei que eu deveria procurar diverti-lo, fazer com que risse... mas isso  uma coisa que nunca mais poderei fazer.
        Disse isso com convico, lembrando que seu pai lhe havia recomendado ser boazinha com o prncipe. Tinha tentado e o resultado foi o homem quer-la de uma 
maneira que a deixava enojada, s de pensar.
        O duque levantou e foi at a mureta do tombadilho. Percebia a perturbao de Salena e, por isso, mudou de assunto:
        - Estou  procura de toninhas. Fique onde est; eu a chamarei, quando as vir.
        Ele tem sido to bom para mim, pensou Salena. E deve me achar uma companheira muito montona.
        Lembrava da inveja no tom da voz do pai quando o duque o cumprimentou no cassino. Naquela noite, ele pareceu estar sozinho, mas era evidente que no estava.
        Quando Dalton levou para Salena uma poro de roupas de baixo to finas como as que madame Yvette lhe havia feito, a moa olhou para elas com surpresa.
        - O duque disse que a senhora pode pegar o que achar necessrio. So roupas de uma hspede que ficou em Monte Carlo.
        - Ser que ela no vai se importar? - Achava que no era direito usar roupas to bonitas que pertenciam a outra mulher.
        - Ela no saber e, se souber, no  provvel que se importe. Estava claro que a tal hspede tinha feito alguma coisa que deixou o duque to enfurecido que 
ele resolveu zarpar, deixando-a em Monte Carlo!
        A tripulao, naturalmente, estava curiosa a respeito do que poderia ter acontecido.
        Tinham apostado que o duque no tardaria a anunciar seu noivado com lady Moreton. Na realidade, apenas Dalton duvidava disso. Viu muitas das favoritas do 
patro aparecerem e depois sumirem.
        Embora o caso com a viva tivesse durado mais do que os outros, havia nela qualquer coisa que fazia com que Dalton sentisse que no era a esposa apropriada 
para o duque, por quem tinha uma admirao sem limites. E ningum melhor do que Dalton sabia que Templecombe nunca tinha estado seriamente apaixonado.
        Algumas vezes, pareceu entusiasmado por algumas moas da sociedade que o haviam perseguido e capturado com o ar de um' pele-vermelha que acrescentasse mais 
um escalpo  coleo. Mas o duque sempre conseguia escapar, no ltimo momento.
        No havia dvida de que tinha estado muito ligado a lady Moreton. Vendo-os juntos, Dalton s vezes pensava que, finalmente, ia haver uma patroa nas casas 
magnficas do duque.
        Mas certas atitudes de lady Moreton ou comentrios tinham feito] com que o criado achasse que ela gostava demais de si mesma para estar realmente apaixonada 
pelo duque, por mais fascinante que ele fosse.
        Apesar de tudo, quando chegaram a Monte Carlo, lady Moreton parecia muito segura de sua conquista.
        Certa vez, num momento de descuido, ao se referir a Combe House, ela disse a Dalton:
        - Vou mudar tudo por l.
        Dalton sabia que se referia  poca em que j fosse a duquesa, e foi com dificuldade que se conteve e no a avisou para no contar vitria antes do tempo.
        Devo ter pressentido que isto ia acontecer, pensou ele na noite anterior, quando o duque apareceu no iate de cara fechada e o Afrodite zarpou sem levar lady 
Moreton.
        Dalton, um homenzinho muito curioso, achava exasperante no saber exatamente o que havia acontecido. De uma coisa, entretanto, no tinha dvida: lady Moreton 
jamais seria a duquesa de Templecombe e, no que lhe dizia respeito, achava isso timo.
        Assim sendo, entregou a Salena as roupas mais finas e mais caras de Imogen. Com certa pena, pensou que por ser muito pequena, a moa no poderia usar nenhum 
dos sofisticados vestidos de baile, nem os trajes de passeio. Os sapatos tambm eram grandes demais; foi s enfiando um pouco de algodo na parte da frente que Salena 
pde us-los com o vestido de algodo que o capito havia comprado para a filha.
        Infelizmente, o vestido era comprido demais, e Dalton resolveu que, quando chegasse a Gibraltar, ia pedir licena ao duque para ir  terra e procurar alguma 
coisa que servisse melhor para a nova passageira.
        Tambm ele estava intrigado e ficou imaginando o que a deixava to apavorada e porque estava nadando to longe da costa. Todos a bordo comentavam que a moa 
queria se matar. Ela  jovem demais para j ter sofrido tanto, pensou Dalton, revoltado. Tentou manifestar sua simpatia por ela fornecendo-lhe tudo que era necessrio 
ao seu conforto.
        No havia sinal de toninhas, mas comeou a soprar uma brisa suave e o duque disse a Salena:
        - Acho que voc deve descer. Afinal, depois de tudo por que passou, seria fcil apanhar um resfriado. Embora Dalton fosse gostar de tratar de voc, eu no 
teria com quem conversar s refeies.
        - Mas no disse que queria ficar sozinho?
        - Eu queria ficar livre de reunies barulhentas e de gente fofocando. Como voc no se encaixa em nenhuma dessas categorias, estou encantado por ter sua 
companhia.
        Era um elogio muito discreto, mas ele teve receio de que ela ficasse amedrontada. No entanto, Salena no parecia estar ouvindo.
        Realmente no estava. Pensava nas festas da vila e como as conversas lhe tinham parecido estranhas e incompreensveis.
        O prncipe devia achar que ningum falaria de sua legtima esposa. Com certeza, era por isso, que Versonne parecia to segura.
        Pela primeira vez, lhe ocorreu que aquela francesa havia sido amante do prncipe.
        
        Embora Salena tivesse percebido que a outra tinha muito cime de quem se aproximava dele, jamais tinha imaginado que a francesa fosse outra coisa, alm de 
hspede da vila.
        Amante!
        Parecia horrvel que, tendo uma amante, alm de uma esposa na Rssia, o prncipe tambm a quisesse possuir, pagando a seu pai uma grande quantia em dinheiro.
        Salena teve vontade de gritar, tal a dor que tais pensamentos lhe causavam.
        Amava o pai e parecia inacreditvel e degradante que ele se rebaixasse a ponto de vend-la.
        Agora compreendia o que ele queria dizer, ao repetir: "Se ao menos houvesse tempo..." Tempo, talvez, de encontrar para a filha um marido legtimo; no um 
homem que encenasse uma cerimnia de casamento para engan-la.
        A verdade surgiu  sua frente, ao lembrar da insistncia de lorde Cardenham em que era um mau pai, mas que a amava. Era vergonhoso ele ter entrado em conluio 
com o prncipe para engan-la, simplesmente porque no ousavam contar-lhe a verdade.
        O duque havia dado as costas ao mar e estava apoiado na grade, de frente para Salena. Ficou intrigado com o silncio e a expresso da moa: parecia se sentir 
humilhada e degradada. Achou que qualquer coisa que dissesse naquele momento s ia piorar a situao.
        Ao mesmo tempo, sua curiosidade aumentou e teve que se dominar para no fazer perguntas, para no chegar a suplicar a ela que lhe fizesse confidncias.
        Foram para o salo. Salena estava to plida que o duque sugeriu que ela fosse se deitar. A moa concordou e ele tocou a campainha, para dizer a Dalton que 
preparasse uma bolsa de gua quente.
        
        Ficando sozinho, o duque pegou um livro que estava ansioso para ler, mas achou impossvel se concentrar. S o que via era um rosto angelical, com olhos enormes 
e uma expresso de sofrimento de cortar o corao.
        Que diabo podia ter acontecido? Para ele, Salena era mais misteriosa do que qualquer coisa que ele pudesse encontrar num livro. Sabia que no descansaria 
enquanto no descobrisse a histria e as aventuras de sua passageira.
        No houve sinal dela na hora do jantar. O duque ficou decepcionado quando Dalton entrou no salo e disse:
        - A moa est dormindo, Vossa Graa, e achei que no devia acord-la.
        - Tem toda razo, Dalton. A melhor coisa para ela  dormir o mais possvel.
        -  melhor do que qualquer fortificante que um mdico pudesse receitar.
        - Ento, deixe que durma. Ela se sentir muito melhor amanh, quando acordar.
        Dalton concordou plenamente.
        Assim, o duque teve um jantar solitrio. Quando terminou, foi andar pelo tombadilho, at que tambm sentiu sono.
        Enquanto se despia, disse a si mesmo que tinha gostado daquele dia. Foi diferente de qualquer outro de sua vida.
        Dalton estava recolhendo as roupas do patro. O duque perguntou:
        - A srta. Salena no acordou?
        - Ainda no. Espiei na cabine agora h pouco e ela estava num sono profundo. Coloquei uma bolsa de gua quente na cama, mas no a incomodei.
        - Est certo, Dalton. Sei que posso confiar em voc, quando algum no est passando bem.
        -  mais fcil tratar do corpo do que da mente, senhor.
        O duque deitou, decidido a ler. Mas logo largou o livro e apagou a luz, pensando em Salena.
        Devia ter dormido uma hora ou mais, quando qualquer coisa o despertou.
        Ficou subitamente alerta, mas s o que ouviu foi o rudo das mquinas. Depois, um som...
        Sem dvida, era um grito.
        Acendeu a luz da cabeceira. Ao ouvir novos gritos de Salena, pulou da cama e correu para a cabine ao lado.
        Assim que abriu a porta, a moa correu para ele. Estava usando uma das camisolas de Imogen e, como era muito comprida, Salena tropeou. O duque amparou-a 
e ela gritou de novo:
- Eles esto atrs de mim! Vo me pegar! Salve-me! Salve-me! 
        Agarrou-se a ele, freneticamente.
        - Est tudo bem. Voc estava sonhando. Ningum vai peg-la. Voc est em segurana.
        - Eles esto ali! Eu os vi!
        Deu mais um grito, que pareceu ficar preso na garganta. Tremendo violentamente, escondeu o rosto no ombro do duque.
- Voc est em perfeita segurana aqui no Afrodite, Salena. 
        Achou que o nome do iate a traria de volta  realidade. De repente, como uma criana que chegou ao fim das foras, comeou a chorar.
        Chorou muito, os soluos sacudindo-lhe o corpo, o rosto escondido no ombro do duque.
        Compreendendo que a moa no sabia onde estava, nem o que lhe acontecera, ele a carregou nos braos.
        
        Por um momento, pensou em coloc-la na cama, mas depois percebeu que Salena se agarrava a ele convulsivamente, como se fosse uma tbua de salvao da qual 
no podia se separar.
        Carregando-a no colo, levou-a para o seu camarote.
        Era muito grande, na popa, com vigias de cada lado. Contra uma das paredes havia um sof confortvel, de veludo, combinando com a cabeceira da cama.
        O duque sentou, com Salena no colo, segurando-a como se fosse uma criana.
        Ela continuou chorando e ele chegou a sentir que a seda fina no ombro de seu camisolo estava mida de lgrimas.
        Era to pequena e delicada que o duque achou que era realmente uma criana precisando de proteo. Foi em voz suave que disse:
        - No precisa chorar. Basta confiar em mim para que eu a ajude, e ningum a machucar enquanto estiver comigo.
        - Eles... me... levaro para a guilhotina.
        As palavras foram apenas sussurradas, e o duque pensou que no tivesse entendido bem.
        - Eu... o matei! - continuou Salena, ainda num murmrio. - Eu no pretendia fazer isso... mas peguei o cortador de papis quando estava tentando escapar... 
e ele caiu em cima da ponta...
        Essa recordao fez com que desse um grito abafado.
        - Havia sangue na cama... e ele disse que eu o tinha matado... e depois morreu.
        O duque afagou os cabelos dela, que caam at os ombros, e percebeu que a camisola de Imogen, muito ousada e reveladora, mal lhe cobria os seios.
        - Escute, Salena, sei que, seja o que for que tenha feito, foi um acidente. Prometo que, mesmo que eles descubram onde voc est, o que  pouco provvel, 
no ser executada.
        - Mas eu... eu o matei.
        - Se foi o homem que bateu em voc, ento, mereceu isso.
        A firmeza da voz do duque fez com que as lgrimas cessassem.
        - Ele me bateu... porque eu estava tentando fugir.
        - Por qu?
        Tinha medo de fazer perguntas ou de fazer qualquer outra coisa, a no ser consol-la. Era essa a revelao que esperava ouvir e teve cuidado para no assust-la, 
com medo de que se calasse novamente.
        Aps alguns segundos, Salena respondeu:
        - Ele tinha uma esposa e filhos.
        - Mas voc achou que o amava? 
        Ela ergueu o rosto e fitou-o, incrdula.
         luz da lmpada de cabeceira, o duque viu o rosto manchado de lgrimas. Apesar disto, ela estava muito bonita, mas ao mesmo tempo era pattica, criatura 
perdida, quase levada  loucura pelo pavor.
        - Ele era mau, velho e horrvel! Mas pagou a meu pai para me possuir... e eu no pude fazer nada.
        Agora, ela chorava mansamente, e o duque achou que o terror j estava desaparecendo.
        Comeava a ter uma idia do que acontecera. Embora desejasse fazer ainda inmeras perguntas, achou que no era oportuno. Apenas continuou apertando-a contra 
o peito...
        Ocorreu-lhe que era a primeira vez que tinha nos braos uma mulher que no pensava nele como homem e, sim, como um refgio.
        - Voc passou por muita coisa. Sugiro que volte para a cama e tente dormir.
        Ela estremeceu.
        - Vou sonhar e achar que esto querendo me pegar. Sei que esto atrs de mim.
        - No pode ter certeza disso. E, mesmo que estejam atrs de voc, no a encontraro. A chance de eu apanh-la no mar era uma em um milho. Quem  que poderia 
desconfiar do que aconteceu?
        - Acha que eles vo pensar que eu me afoguei?
        - Tenho certeza disso.
        - E no deixar que ningum saiba que estou aqui?
        - Ningum saber. Quando estiver disposta a me contar tudo, farei umas investigaes discretas. Afinal,  muito frgil, e seria difcil voc matar um homem. 
Talvez ele no tenha morrido.
        - Ele disse: "Voc me matou! Estou morrendo!" E fechou os olhos.
        - Deve ter sido assustador! Mas confie em mim para descobrir a verdade.
        - No  direito eu envolv-lo.
        - No me envolverei. - Percebeu que Salena estava exausta de tanta emoo e a ponto de desmaiar. - Vou lev-la para a cama, e acho que seria uma boa idia 
pedir a Dalton que lhe traga um leite quente.
        - No! No! - murmurou Salena, agarrando-se a ele. - No quero que ele me veja. Quero s... ficar com voc.
        Percebeu que a moa no sabia o que tais palavras podiam significar e que se agarrava a ele apenas por se sentir segura.
        - Vou lev-la para a cama e deixar uma luz acesa. Assim, se acordar, no ter medo. Sabe que estou na cabine ao lado e se me chamar eu a ouvirei.
        - Voc... vai deixar a porta aberta?
        - Deixarei as duas abertas: a sua e a minha. E garanto que tenho sono muito leve. Eu a ouvirei; mesmo que seja apenas um murmrio.
        Levou-a para a outra cabine e colocou-a na cama. Teve a impresso de que Salena estremecia, no escuro, e acendeu imediatamente a luz. Viu-a olhar em volta.
        - Como v, no h ningum aqui e nenhum lugar onde algum possa se esconder. Est em segurana, Salena. Continue dizendo para voc mesma: "Estou segura!" 
E lembre que estou na cabine ao lado.
        Ela descansou a cabea no travesseiro e o duque puxou as cobertas para cima.
        Salena fitou-o, e ele teve o impulso quase irresistvel de inclinar-se e beij-la. Mas achou que isso no s poderia assust-la, como destruir a confiana 
que depositava nele.
        Sorriu.
        - Durma, Salena. E no esquea: basta um murmrio e estarei a seu lado.
        - Tem certeza? -- Tirou uma das mos de sob as cobertas e segurou a dele. - Voc no vai embora?
        - Estamos no meio do Mediterrneo. Eu teria que nadar muito, at poder chegar  Espanha. - Riu e acrescentou: - No se preocupe: estarei aqui amanh cedo.:
        Sentiu que os dedos da moa apertavam os dele. Depois, Salena relaxou e fechou os olhos.
        O duque fitou-a por um longo momento e saiu, silenciosamente, deixando a porta aberta.
        Nunca lhe acontecera uma coisa to estranha! Ficou acordado, pensando no que Salena havia contado e procurando ajustar as peas. Parecia-lhe incrvel que 
ela pudesse ter nadado at to longe. Se no estava num iate, devia ter vindo de uma das vilas fora de Monte Carlo,  beira-mar.
        O Afrodite passara pelo rochedo onde se erguia o palcio do prncipe Charles; depois, vieram as vilas abaixo e acima da estrada que ligava Monte Carlo a 
Nice.
        O duque calculava que tinham apanhado Salena num ponto entre Monte Carlo e Nice e procurou lembrar os nomes de alguns dos proprietrios das vilas ao longo 
daquele trecho da costa.
        Fazia alguns anos que visitara Monte Carlo, mas geralmente ficava a bordo. Embora conhecesse aquela estrada, no estava to acostumado com ela como estaria 
se possusse uma vila l ou se se hospedasse na de algum amigo.
        O marqus de Salisbury tinha uma propriedade enorme na regio, mas no ficava no nvel do mar.
        Era impossvel imaginar que Salena, vestindo apenas uma camisola, pudesse ter descido para a estrada, atravessando-a e depois indo at a praia. Assim sendo, 
tinha certeza de que a vila onde estava hospedada ficava no litoral. Isso diminua consideravelmente o raio de ao de suas futuras pesquisas. Mas no esclarecia 
nada, por enquanto.
        Ela est comeando a ter confiana em mim, pensou. Mais cedo ou mais tarde, me contar tudo, at mesmo seu nome.
        Parecia incrvel que a tivesse to apertada nos braos, que a tivesse visto nua, que ela se tivesse agarrado a ele, desesperada, querendo ser salva de seus 
pesadelos e de seus receios, e ainda no soubesse quem ela era!
        No havia dvida de que era uma dama: havia algo de aristocrtico nas feies delicadas, perfeitas. Assim como havia algo maravilhoso em cada linha de seu 
corpo.
        - Ela  nica. Se eu no fosse um homem prtico, poderia pensar que  a reencarnao de Afrodite chegando  terra com todas as complicaes de amor e de 
traio, caractersticas da mitologia grega.
        Sabia que devia procurar dormir, mas, virando a cabea no travesseiro, percebeu que estava  escuta, caso Salena o chamasse.
        Refletiu que ningum, e muito menos Imogen, acreditaria que uma mulher bonita havia pedido que ficasse com ela e que ele tinha recusado.
        Ficou imaginando se o homem que a agrediu e traiu to cruelmente a teria beijado e ficou com raiva, ao imaginar tal coisa.
        - Porco maldito! Se no estiver morto, gostaria de ter a chance de mat-lo, eu mesmo!

CAPTULO V


        - Xeque-mate!
        Foi um grito de triunfo e Salena bateu palmas, encantada, dizendo:
        - Ganhei! Ganhei pela primeira vez!
        O duque olhou para o tabuleiro de xadrez, com expresso perplexa.
        - Eu devia estar dormindo, ou pensando em outra coisa, para deixar que voc me pegasse desprevenido.
        - Ganhei, mesmo? Voc no estava sendo... generoso?
        - Claro que no! Gosto de mostrar minha superioridade, ganhando sempre que possvel.
        - No, desta vez!
        - No. Voc venceu, realmente.
        Salena riu de novo, de pura alegria. Quando levantou e foi at a janela, olhando para o jardim, o duque achou inacreditvel to grande mudana.
        Como se estivesse pensando a mesma coisa, Salena disse: 
        - Isto aqui  lindo. Todas as vezes que olho para as flores e para o azul do mar, fico pensando como sou feliz. Sabe que j faz trs semanas que estamos 
aqui?
        O duque achava difcil acreditar que tanto tempo tivesse passado, desde o dia em que havia atracado na baa. Ele e Salena ficaram no convs do Afrodite, 
vendo os navios costeiros marroquinos navegarem preguiosamente de um lado para o outro, atirando suas redes.
        Salena olhou para os morros que brilhavam ao sol e para os minaretes do palcio do sulto. O duque apontou para um lugar um pouco fora da cidade, onde havia 
plantaes de laranjeiras e de oliveiras.
        - Minha vila fica l e acho que voc a achar mais bonita e, certamente, mais confortvel do que o palcio do sulto!
        Em vista disso, Salena esperava qualquer coisa excepcional, talvez parecida com a vila do prncipe em Monte Carlo.
        Realmente encontrou um verdadeiro palcio em estilo mourisco, com ptios, terraos frescos e inmeros aposentos ocupando grande parte do terreno. A casa 
era cercada por um jardim to bonito-que Salena no tinha palavras para descrev-lo.
        O duque explicou que o pai havia passado os ltimos anos de vida em Tnger, comprando e ampliando a vila. Dedicou-se principalmente ao jardim, que j era 
excepcional, e se tornou um dos mais belos de toda Marrocos.
        O duque disse ainda a Salena que fazia dois anos que no vinha ali, mas que no precisava se preocupar com isso, pois havia empregados que cuidavam de tudo.
        Logo depois de ter herdado o ttulo, seu administrador de Combe, que estava ficando velho, foi aconselhado pelo mdico a procurar um clima mais ameno.
        O duque mandou, ento, o sr. Warren e a mulher para Tnger, sem nada mais trabalhoso do que manter a vila sempre preparada para receb-lo.
        Se Salena no estivesse em sua companhia, no teria avisado os Warren, chegando de surpresa, como sempre o fazia. Mas passou um cabograma aos caseiros, avisando-os 
da data da chegada do iate a Gibraltar.
        Bastou um olhar para a vila para saber que no tinha necessidade de avis-los. As paredes haviam sido pintadas recentemente, os quartos arejados, e o jardim 
parecia ainda mais extico.
        O duque achava que aqueles dias de beleza e de sossego tinham afastado os receios de Salena e que ela estava voltando ao que devia ser, antes da terrvel 
experincia em Monte Carlo.
        Depois de ter chorado nos braos dele, aquela noite no iate, foi fcil fazer com que a moa lhe contasse o resto da histria, quase sem perceber o que fazia.
        O que ela deixou de contar pareceu bvio ao duque. Podia compreender muito bem que, no tendo experincia com os homens de vida social, ela a princpio tivesse 
ficado perplexa e depois aterrorizada. Ainda mais, porque sempre havia sido protegida.
        Apesar de tudo, qualquer moa de dezoito anos, mesmo que fosse mais sofisticada, ficaria enojada e mentalmente afetada em tal situao. O duque compreendia 
que a extraordinria resistncia de Salena, ao nadar durante tanto tempo, foi o resultado de estar motivada por uma emoo violenta. Era mais ou menos a mesma coisa 
que acontecia com um homem encolerizado. Ele seria capaz de lutar por dois, simplesmente pelo fato de estar" sob o domnio da emoo.
        Depois de semelhante experincia, era inevitvel que houvesse conseqncias de ordem mental e fsica.
        O duque era bastante esclarecido para saber que ainda levaria tempo para Salena ficar completamente curada e esquecer os horrores a que tinha sido submetida. 
Nada melhor para isso do que ficar na vila s com ele e com os criados marroquinos, calmos, discretos, que trabalhavam sob as ordens de Warren e sabiam se manter 
quase invisveis.
        Era o mesmo que estarem sozinhos numa ilha de sonho. A cada dia, o duque ficava mais encantado com Salena. Aos poucos, ela contou tudo que lhe havia acontecido 
em Monte Carlo.
        Mas guardou segredo de duas coisas: sua identidade e a identidade do homem que a surrou.
        O duque ficou perplexo por ela no confiar totalmente nele, mas depois compreendeu que Salena, na realidade, queria proteger o pai.
        O que no sabia era que estava assumindo um papel cada vez mais importante na vida dela. Alm do medo do prncipe e de todos os homens iguais a ele, Salena 
sentia ansiedade quanto ao seu futuro, procurando, no entanto, afastar tais pensamentos. Dizia a si mesma que no permitiria que isto estragasse sua felicidade presente, 
nem a alegria de estar num lugar to maravilhoso.
        Todas as noites, quando fazia suas oraes, agradecia a Deus por salv-la e ter permitido que seu salvador fosse o duque.
        Apesar de tudo, a idia de outros homens ainda era aterradora. Por isso, evitava andar pelas ruas de Medina, onde havia barracas que vendiam peas de artesanato 
encantadoras, sobre as quais tinha lido muito.
        Queria ver coisas, no gente. Temia o contato com outras pessoas, alm do duque.
        Ele compreendia tais sentimentos, e sentiu grande alvio por no ter que correr atrs dela por ruas estreitas e abafadas, fazendo compras, como outra mulher 
poderia ter esperado dele.
        Detestava ser importunado por vendedores de jias baratas, de cermica, especiarias e tapetes, coisas das quais no precisava.
        Na ltima vez que foi a Tnger, levou uma linda moa da sociedade, uma das antecessoras de Imogen. Ela queria comprar tudo que via; embora o duque tivesse 
achado isso divertido, no tinha inteno de ver uma repetio daquela ganncia.
        Levou Salena de carro para o interior, para visitarem as plancies frteis habitadas por tribos mouras. Ela ficou maravilhada quando viu pela primeira vez 
as romzeiras, as tamareiras, as nogueiras, as figueiras e as oliveiras, assim como se encantou com a aparncia colorida das pessoas que encontravam na estrada.
        O duque mostrava os vendedores de gua, vestidos de vermelho-vivo e tendo nas costas uma pele de cabra ainda com plos. As mulheres de vu djellaba e os 
homens de fez vermelho na cabea, cales verdes e chinelos amarelos fizeram com que ela sentisse que tudo fazia parte de um conto de fadas.
        O duque falou-lhe dos berberes, que pertenciam a uma raa magnfica, antiga e misteriosa, que vivera na frica do Norte, principalmente nas montanhas, desde 
o comeo da civilizao. Salena ouviu com ateno, quando ele contou que o berbere era alto, corajoso, muitas vezes um lingista brilhante e um grande agricultor.
        - Talvez voc goste de saber que Santo Agostinho, assim como outros homens notveis, era berbere.
        Era uma novidade para o duque encontrar uma mulher que queria conversar com ele intelectualmente e, mais estranho ainda, que desejava que lhe desse informaes 
sobre coisas que no a atingiam pessoalmente.
        s vezes, ele a punha  prova, um ou dois dias depois, para ver se Salena tinha ouvido realmente e compreendido. Invariavelmente, descobria que ela no s 
se lembrava, como havia pensado sobre o assunto, tirando suas prprias concluses.
        
        Estamos aqui h trs semanas, repetiu para si mesmo.
        Estava reclinado na cadeira, olhando para a silhueta de Salena contra o sol, l fora.
        Meses antes, se algum lhe tivesse dito que ia ficar durante tanto tempo sozinho com uma mulher sem se cansar, no teria acreditado. At mesmo dos seus casos 
ardentes ficava logo entediado, quando no estava fazendo amor. Agora, surpreendentemente, cada momento era uma delcia.
        Passava o tempo todo com Salena, no a deixando nem mesmo para ir andar a cavalo, como teria feito se estivesse em companhia de qualquer outra pessoa. Sabia 
que a moa sentiria medo, em sua ausncia, e no queria que tivesse uma recada, agora que parecia to alegre.
        Era suficientemente honesto para reconhecer que havia mais do que isso. Mas se recusava a admitir que estava apaixonado. Desde aquela noite em que desejou 
beij-la porque a achou to pattica, o desejo no s de beij-la, mas de segur-la nos braos e fazer amor com ela, tinha sido uma tentao permanente.
        Acostumado a ser a caa e no o caador, nunca teve que controlar seus desejos nem que refrear as paixes. Mas sabia que, com Salena, uma palavra imprudente, 
um gesto no controlado poderiam abalar a confiana que a moa tinha nele e fazer com que voltasse o medo que ainda no estava muito longe da superfcie.
        Assim sendo, ele se obrigou a um tremendo controle e a uma disciplina to nova e to incomum, que s vezes ria dos prprios esforos.
        Sabia que ferir Salena, depois do comportamento infame do pai e do outro homem, seria uma traio que ela jamais perdoaria.
        Eu a amo!, pensou. Amo-a como jamais amei mulher alguma.
        Ficou admirado de sua capacidade de sentir to intensamente, to profundamente. Era como se dissesse, como outros amantes haviam dito desde o incio do mundo: 
"Isto  diferente. Jamais acreditei que o amor pudesse ser assim".
        Mas era verdade. Isso era diferente!
        O duque nunca tinha desejado proteger uma mulher, cuidar dela. Sempre se preocupava com os prprios sentimentos, no com os da mulher.
        O amor jamais lhe pareceu mais espiritual do que fsico, mas ele sabia que a necessidade que tinha de Salena era um fogo que o queimava por dentro, sempre 
crescendo em intensidade.
        Ela saiu do jardim e veio ao encontro do duque.
        A sala onde ficaram sentados era muito fresca e decorada com os mais belos mosaicos. Havia tapetes to preciosos que deviam estar pendurados nas paredes; 
os sofs confortveis estavam cheios de almofadas coloridas. Era uma sala planejada para descanso, alm de conter tesouros que Salena havia examinado com espanto 
e admirao.
        - Quando refrescar, podemos ir at a praia? - ela perguntou. -  agradvel e lindo perto do mar.
        Havia um caminho sinuoso e estreito por onde se descia at a praia, pelo rochedo. O duque achava que era um bom exerccio descer com Salena por ali para 
caminharem durante quilmetros pelas areias douradas, depois que o calor diminua.
        - Acho que a nica razo de voc querer ir ver o mar  porque est com vontade de nadar.
        - Seria timo nadar com voc.
        - Estive pensando em mandar construir aqui uma piscina. Para dizer a verdade, j discuti isto com o sr. Warren.
        - Uma piscina! Seria maravilhoso! No nado numa piscina desde que estive em Bath. L, a gua  naturalmente quente.
        - A gua, aqui,  quente por causa do sol. O difcil vai ser mant-la fresca!
        - Quando  que poderia ficar pronta? Ele riu.
        - Levar tempo. Nada  feito depressa nos pases rabes.
        Viu a excitao desaparecer do rosto dela e lembrou que Salena no estaria ali, quando a piscina ficasse pronta. Pouco depois, ela disse:
        - Estive pensando, ontem  noite, que logo voc vai querer... partir.,
        - Por que pensou nisso?
        - Dalton esteve dizendo que nunca o viu ficar tanto tempo aqui, ou em qualquer outro lugar. No foi uma queixa; s um comentrio. Ele gosta daqui.
        - Agrada-me saber que ele gosta. Mas, e voc?
        - Sabe que adoro.  o lugar mais maravilhoso que j vi.  como viver no paraso. - Olhou para fora da janela e depois para o duque. - Mas eu estaria feliz 
em qualquer parte do mundo, se... estivesse com voc.
        Falou com a espontaneidade de uma criana, e mais uma vez ele achou difcil saber o que ela sentia por ele como homem. O duque achava que, pelo fato de ter 
vivido num convento nos dois ltimos anos e por no ter experincia, Salena no sabia o que era coqueteria.
        Havia tambm a reao natural pelo fato de ter sido assaltada por um bruto cujo nico pensamento era a luxria, de modo que ela fugia de tudo que pudesse 
envolv-la como mulher.
        Ser que me ama? ele pensou, pela centsima vez. No havia dvida de que gostava de estar com ele. Salena no sabia esconder seus sentimentos. Quando o duque 
entrava na sala, o rosto dela se iluminava. Depois, corria e segurava-lhe a mo. Conversava com naturalidade, sem afetao e sem constrangimento.
        Ele ia at o quarto dela para dar boa-noite e nunca ocorreu a Salena que isso era repreensvel ou mesmo pouco convencional.
        O duque estava convencido de que ela o considerava seu protetor, a nica coisa estvel que tinha na vida. Jamais lhe passou pela cabea, por um momento sequer, 
que ele poderia ser um amante em potencial.
        Salena se aproximou do duque e, como fazia muitas vezes, sentou no cho aos ps dele.
        - H tantas coisas que eu gostaria de fazer com voc - disse, como se pensasse alto. - Voc falou que eu devia esperar at ficar completamente boa, e agora 
estou bem, garanto.
        - Ento, o que gostaria de fazer?
        Salena ergueu o rosto, e ele achou que estava ainda mais bonita. Havia nela um ar etreo, e o mais fascinante era que no percebia o quanto era atraente.
        De certo modo, o duque podia compreender o homem que a comprou do pai, desejando-a a ponto de perder a cabea. O fato de t-la to perto fazia seu corao 
bater acelerado e as veias latejarem nas tmporas. Foi preciso um esforo para no tom-la nos braos e apert-la contra o peito.
        - O que deseja fazer? - repetiu, tentando controlar a emoo. Ela ergueu a mo esquerda e contou nos dedos.
        - Um: gostaria de ir nadar com voc. Dois: gostaria de andar a cavalo, como me prometeu. Trs: quero explorar as montanhas que ficam alm da plancie e onde, 
como me disse, se v a verdadeira Marrocos, onde os turistas nunca vo.
        -  um programa e tanto! Mais alguma coisa? Salena abriu os braos.
        - Dezenas e dezenas. Vou fazer uma lista, se voc quiser. Gostaria que voc me contasse e me ensinasse muitas coisas, e o mundo  muito vasto.
        - Por essa observao, acho que est insinuando que o Afrodite est na baa, esperando para nos levar a outras terras.
        Salena respirou fundo.
        - Sei que  um... sonho impossvel. Mas, s vezes, antes de adormecer, imagino que estamos navegando para o desconhecido... at encontrarmos uma terra que 
ainda no foi descoberta.
        - No h muitas. E talvez estejamos numa terra menos desenvolvida do que qualquer outra.
        - Por qu?
        - Uma das razes  que os desertos esto ocupados por tribos ferozes de bandidos e assassinos.
        - Ento, no vamos l. Imagino se voc fosse feito prisioneiro... ou assassinado. Eu no poderia suportar isso!
        Havia na voz da moa uma nota que o duque achou muito comovente.
        - Fico pensando se voc se importaria realmente...
        Antes que ele pudesse terminar a frase, a'cortina que cobria uma das entradas da sala foi afastada e um criado nativo entrou com uma visita.
        Por um momento, o duque olhou, incrdulo, para a recm-chegada. Compreendeu, tarde demais, que devia ter dado ordem para que dissessem que ele no estava 
em casa, se aparecesse algum.
        Nunca imaginou que os amigos soubessem onde ele se encontrava, e agora era tarde demais. Imogen adiantava-se para ele. Imogen, com um sorriso no rosto bonito.
        Estava muito elegante e sofisticada, com um vestido evidentemente parisiense e um chapu que devia ter deixado os marroquinos atnitos, quando ela se dirigia 
para a vila.
        - Est admirado por me ver, Hugo?
        Havia em sua voz uma nota que dizia que ela esperava que estivesse, no admirado, mas encantado.
        Ela levantou e se ps de p, imediatamente. Ficou por um momento olhando para a mulher elegante, depois saiu correndo da sala, por outra porta.
        Imogen ficou olhando-a com ar indagador.
        - Quem  essa? - perguntou Imogen, com uma certa brusquido.
        O duque rebateu com outra pergunta:
        - Por que veio?
        - Achei que voc viria para c. - Aproximou-se e o encarou. - Como  que pde ser to cruel, to maldoso, me abandonando daquele jeito? No parecia coisa 
sua, Hugo. Vim para lhe dizer isso.
- Quem a trouxe? 
Imogen riu baixinho.
        - No precisa ficar com cime, querido, No foi o gro-duque. Contaram-me, l na vila, que voc tinha ido para o jardim  minha procura e que no voltou, 
de modo que adivinhei o que aconteceu. - Sacudiu a cabea. - Sabendo o quanto tnhamos significado um para o outro, certamente voc no iria se importar com uma 
coisa to trivial, to sem importncia como um beijo.
        O duque no disse nada. Perguntava a si mesmo como pde, um dia, achar Imogen atraente. Havia nela qualquer coisa to superficial que era de admirar que 
ele no tivesse notado antes.
        - Lamento que voc tenha vindo de to longe para explicar uma coisa que no necessita de explicao.
        - Que quer dizer com isto?
        - Quero dizer que somos ambos civilizados. Sinto-me grato, Imogen, pela felicidade que me proporcionou e pelos dias agradveis que passamos juntos, mas isso 
acabou.
        Viu pela expresso dela que, nem por um momento, imaginava que a ligao deles tivesse realmente terminado. Era pretensiosa demais para pensar que um homem 
pudesse se cansar dela, antes que se cansasse dele.
        Com certeza, Imogen achava que ele tinha partido num acesso de cime o que bastaria ela aparecer, para que compreendesse que no podia viver sem a amante.
        - No pode estar falando srio, Hugo!
        -  muito melhor sermos francos a respeito dessas coisas. Imogen fez um esforo para falar em tom persuasivo.
        - Ainda est zangado comigo, e  tolice sua, porque sabe que o amo e que no h nenhum outro homem na minha vida. - Viu que no o convencia e continuou: 
- Ningum deve levar o gro-duque a srio. No pode permitir que ele estrague a felicidade que ns dois tivemos juntos neste ltimo ano.
        O duque no respondeu, ela comeou a ficar nervosa.
        - Se tive um flerte com Boris foi porque voc no parecia me querer a seu lado para... sempre. No me pediu, querido Hugo, para casar com voc.
        Chegou mais perto dele, esperando que a abraasse, os lbios prontos para receber os dele.
        O duque se afastou bruscamente e foi at a escrivaninha.
        - Vou lhe dar um cheque, Imogen, para compens-la por qualquer desconforto que minha partida sbita tenha causado.
        Encontrar tambm suas roupas e suas jias a bordo do Afrodite. Provavelmente, viu o iate, quando chegou aqui.
        - No s o vi, como j estive a bordo. Eu no podia acreditar que voc quisesse me privar das jias que me deu e que prezo tanto, porque so uma prova do 
seu amor.
        O duque abriu o talo de cheques.
        Como se de repente compreendesse que a doura da voz e as adulaes de nada adiantavam, ela bateu o p.
        - No quero seu dinheiro, Hugo. Quero voc! Pare de fingir! Pode mandar buscar a minha bagagem, e seremos felizes, juntos, como sempre fomos.
        - No estou fingindo: Nem a estou convidando para ficar aqui como minha hspede.
        - Hugo! - A palavra pareceu ecoar por toda a sala.
        - Lamento se a perturbo - disse o duque, de costas para ela. - Mas eu estava dizendo a verdade: acabou tudo.
        - No acredito! Voc s est dizendo isso porque quer que eu me ajoelhe e pea perdo por ter deixado que Boris me beijasse. O beijo no significou nada! 
Voc estava se divertindo nas mesas de jogo. Por que  que eu no podia me divertir um pouco?
        - No a estou recriminando - disse ele, com ar cansado. Levantou com o cheque na mo e aproximou-se da moa. - Pegue isto, Imogen, e permita que mais uma 
vez eu lhe agradea os dias que passamos juntos. Faa o possvel para me esquecer no futuro.
        - Esquecer voc?!
        Ao mesmo tempo que protestava, pegou o cheque. O duque percebeu que ela pretendia rasg-lo, at ler a quantia enorme.
        - Acha realmente que pode viver sem mim? - perguntou Imogen, agora em tom diferente.
        - Tenho tanta certeza disso como de que voc pode viver sem mim.
        - Sempre pensei, Hugo, que um dia nos casaramos. Fomos feitos um para o outro.
        - Eu no seria o marido certo para voc. Imogen suspirou.
        - Acho que voc no  do tipo casadouro, embora eu saiba que sempre haver mulheres em sua vida. Que  que aquela menina... porque no parece mais do que 
uma criana... significa para voc?
        - Isso  s da minha conta.
        - J a vi antes, em algum lugar - disse ela, franzindo a testa, esforando-se para lembrar.
        - J?
        Queria perguntar onde Imogen tinha visto Salena e se sabia o nome dela. Mas disse a si mesmo que no devia espionar a mulher que amava e, muito menos, envolver 
Imogen no segredo dela.
        - Tenho certeza de que voc tem uma carruagem  espera - disse ele. - Ou quer que eu providencie uma?
        - Est mesmo me mandando embora, Hugo? No acho isso possvel!
        O tom era realmente de incredulidade. Mas o duque notou que ela guardava o cheque numa bolsinha de seda presa por fitas na cintura.
        - Acho que seria desagradvel para ns revolvermos o passado e, talvez, estragarmos as coisas que merecem ser lembradas - disse ele. - Tenho certeza de que, 
no futuro, veremos as coisas sob outro aspecto e poderemos ser amigos.
        - No tenho vontade de ser sua amiga. Eu o amo e voc disse inmeras vezes que tambm me amava. - O duque no respondeu. Compreendendo que no adiantava 
insistir, ela continuou: - Muito bem. Mas no posso deixar de pensar que se arrepender de me despedir assim, sem necessidade. Voc teve um cime absurdo, ridculo. 
S porque no quer reconhecer que foi errado e pouco gentil da sua parte me deixar em Monte Carlo,  que agora est fazendo com que eu saia de sua vida.
        Era uma explicao que ela daria a si mesma para pr a culpa nele e se livrar de qualquer responsabilidade.
        - Pode parecer ridculo para voc, Imogen, mas a verdade  que, no passado, sempre teve coragem de enfrentar a verdade.
        Isso no era exato, mas o duque achou que seria um consolo para o orgulho dela.
        - Se no me quer mais, Hugo, h muitos homens que querem. - Virou-se para sair e acrescentou: - No vai me dar um beijo de despedida, pelos velhos tempos?
        O duque sabia que era um ltimo esforo para excit-lo.
        - Acho que seria mais natural que eu a acompanhasse' at a carruagem e que nos despedssemos de maneira cordial.
        - Muito bem, se  o que quer.
        Insultada e humilhada, Imogen atravessou a sala. No falaram, at chegarem  porta da frente.
        Havia ali muitos criados atentos, mas, antes de entrar na carruagem que tinha um toldo branco como proteo contra o sol, ela estendeu a mo enluvada, num 
gesto imperioso.
        - Adeus, Hugo. Mas, se voc se arrepender de sua deciso antes de eu zarpar, poder ser apenas au revoir.
        O duque levou a mo dela aos lbios e no disse nada. Na realidade, Imogen estava pedindo que lhe desse outra chance; mas sabia, ao v-la se afastar, que 
no sentia mais nada por aquela mulher.
        Salena lhe havia mostrado o quanto Imogen era falsa e superficial e que o sentimento que teve por ela no merecia o nome de amor.
        Voltando lentamente para dentro de casa, refletiu que, se ele tinha mudado a vida de Salena, a dele tambm no era a mesma por causa dela.
        Via agora que antes aceitava os valores falsos. A pureza de Salena, sua inocncia, sua f em Deus tinham indicado ao duque um novo senso de valores, nos 
quais deixara de pensar desde muito jovem.
        Em determinada poca, tinha sido muito idealista e se considerava um defensor de tudo o que era nobre e digno. Quando estava em Oxford, dizia a si mesmo 
que, quando herdasse o ttulo, ia se valer de sua posio para mudar muitas coisas na Gr-Bretanha imperialista, coisas que precisavam de reforma.
        Tinha um pequeno crculo de amigos e  noite, depois das aulas, ficavam sentados, fazendo planos para transformar o mundo. Discutiam as injustias da lei, 
a negligncia, as privaes e a fome que ainda existiam na Inglaterra apesar de ser o pas mais rico da Europa. Eles tinham sido como cruzados, achava o duque, dedicando-se 
a uma Guerra Santa contra, no os infiis, mas contra tudo que necessitasse do desafio de novas mentalidades.
        Estavam dispostos a lutar pelo que fosse direito, prontos a desafiar o que estivesse errado.
        Olhando agora para trs, o duque percebia com que facilidade tinha se desviado do curso traado para ele prprio!
        Quando herdou o ducado, logo apareceu muita gente disposta a mostrar como poderia se divertir e a ajud-lo a gastar sua imensa fortuna.
        Havia corridas de cavalos, caadas para as quais o prprio prncipe de Gales gostava de ser convidado, festas quase obrigatrias em Londres, e, no campo, 
em suas propriedades, inmeros problemas que precisavam ser resolvidos.
        Pouco a pouco, foi perdendo contato com os amigos de Oxford, ou ento, assim como ele, esses amigos tinham sido arrastados pela correnteza social, em vez 
de lutar contra ela.
        Foi Salena quem lhe mostrou o caminho de volta.
        Ficou imaginando o que teria ela achado de Imogen, temendo que o inesperado aparecimento daquela estranha a tivesse perturbado.
        
        Salena no estava na saleta, e o duque foi  sua procura, certo de encontr-la no quarto. Era um aposento grande, pegado ao dele, porque a moa ainda tinha 
medo dos pesadelos.
        Ela estava sentada no banco junto  janela, e, ao ver-lhe o rosto, o duque percebeu que a chegada, de Imogen realmente a deixara perturbada.
        - Ela j foi - disse, como se Salena lhe tivesse feito uma pergunta. - E no voltar.
        Sentou-se ao lado dela, nas almofadas macias que cobriam o banco da janela. 
        - Por que est aborrecida?
- Eu no sabia... que havia mulheres em sua vida... assim... 
Era uma resposta inesperada. No sabendo o que dizer, ele foi evasivo:
        - Creio que no compreendo o que est insinuando.
        - Quando vi voc no cassino, pela primeira vez...
        - Voc me viu no cassino? Nunca me contou isto.
        - Eu o vi andando por entre a multido, sozinho. Mas achei que haveria mulheres cheias de jias,  sua espera.
        - Por que pensou isso?
        - No sei. Pensei, apenas. Depois, quando o encontrei sozinho no iate e foi to bom para mim... imaginei que era diferente dos outros homens que conheci; 
homens que s sabem rir, beber e falar uns dos outros.
        - Eu sou diferente! E lady Moreton, a senhora que esteve aqui, no significa nada para mim.
        - Ela ... muito bonita.
        O duque compreendeu que Salena se comparava com Imogen e que, pela primeira vez, estava constrangida ao pensar em competir aos olhos dele com outra mulher. 
Imogen tinha trazido uma onda de realidade para a ilha encantada em que viviam. Era imperdovel ele no ter tomado precaues contra visitas indesejveis.
        Como amava Salena e tinha medo da expresso dos olhos dela, disse:
        - Sou homem Salena, e creio que seria insultar sua inteligncia se eu lhe dissesse que no houve mulheres em minha vida.
        Houve silncio e o duque no ousou olhar para saber como  que Salena aceitava aquilo. Ento, ela disse, timidamente:
        - Acho que eu devia saber disso! Sei que os outros homens so assim, at mesmo pa...
        Interrompeu-se. Esteve a ponto de dizer "papai", mas, aps uma pausa, continuou:
        -  que voc... parecia diferente. No tinha pensado em voc deste modo. Foi estupidez da minha parte.
        - No foi, no. Nas ltimas semanas, Salena, descobrimos coisas novas a respeito de ns dois. - Escolheu com cuidado as palavras, ao continuar: - Mesmo que 
nunca mais a visse depois de hoje, sei que o que voc significou para mim permaneceria e mudaria minha vida. O que, alis,  o que pretendo fazer. Sinto que, de 
certo modo, at conviver com voc, eu andava por a  solta, procurando resolver que rumo tomar e achando difcil escolher o melhor caminho.
        - Voc quer dizer, o tipo de vida?
        - Exatamente! Agora, depois de todas as nossas conversas... e falamos de muitas coisas srias... Pretendo viver de maneira diferente.
        Ficou admirado com a prpria deciso. Sabia que desejava que as coisas fossem diferentes, sabia que queria Salena, mas ainda no tinha coragem de falar.
        - H muitas coisas para serem feitas na Inglaterra, das quais eu devia ter cuidado h muito tempo - disse ele. - Quando eu voltar, vou tratar disso e dedicar 
mais tempo  poltica.
        - Acho que isso seria o mais indicado. Voc no  apenas importante;  inteligente, tem uma mentalidade brilhante.
        O duque sorriu.
        - Espero que no se engane. Nem todos partilham dessa opinio a meu respeito.
        - Mas tenho certeza de que vo mudar de idia.
        O duque quis dizer que precisava da ajuda e da inspirao dela, mas tinha a impresso de que a sombra de Imogen ainda estava entre eles.
        - Acho que seria uma boa idia se hoje  noite discutssemos as coisas que achamos que devem ser feitas; talvez possamos fazer uma lista delas.
        - Voc quer dizer... assim como a lei sobre o emprego de crianas?
        - Exatamente!
        - No convento, ouvi dizer como as costureiras so mal pagas na Frana. A irm superiora, que costumava falar dessas coisas, disse que na Inglaterra h mulheres 
que pregam botes em camisas e tm que pregar milhares por semana para conseguir alguns pence para no morrer de fome.
        - So esses os problemas que devemos examinar e ver o que podemos fazer a respeito. - Olhou para a janela. - Est refrescando. Quer ir para o jardim?
        Levantou e estendeu a mo para Salena. Teve a impresso de que ela hesitou ligeiramente, antes de segur-la, quando, uma hora antes, teria feito isso imediatamente. 
Por causa de Imogen, as coisas haviam mudado. Pela primeira vez, Salena pensava nele como um homem com as mesmas paixes e os mesmos desejos dos outros homens.

CAPTULO VI


        Salena atravessou a saleta, tocando num objeto e em outro. O duque a observava com expresso indagadora.
        Sabia que, dois dias antes, ela teria sentado a seus ps, conversando animadamente e com a naturalidade de uma criana.
        Mas, desde o aparecimento de Imogen, Salena adotava uma atitude reservada que antes no existia.
        A moa ainda ouvia atentamente o que o duque lhe dizia, e seus olhos brilhavam quando ele entrava na sala; ao mesmo tempo, estava tensa.
        - Voc anda muito inquieta. Talvez seja hora de irmos em busca de novos horizontes.
        Ela se virou sobressaltada.
        - Voc quer... ir embora?
        - Estava pensando em voc. Parece entediada.
        - Claro que no estou! Como poderia me entediar a seu lado?  que apenas...
        - Apenas o qu?
        Salena sentou no cho a seu lado. No olhou para ele, mas para a frente e pareceu escolher as palavras com cuidado.
        -  que no posso impedir... No posso deixar de me sentir assim, pensando que talvez voc queira ir para a companhia de seus amigos e que esteja aqui apenas 
por... bondade para comigo.
        - No passado, fui muitas vezes acusado de ser egosta e de pensar mais nos meus interesses do que nos dos outros. - O duque sorriu. - Pode ficar tranqila: 
sinto-me muito feliz aqui. Quando tiver vontade de partir, eu o farei sem cerimnia. Ou, digamos, sem considerao por voc ou por quem quer que seja.
        Salena ergueu a cabea e olhou para ele.
        -  mesmo verdade?
        - Garanto que, quando possvel, sempre digo a verdade. Mentir pode dar muito trabalho desnecessrio.
        - Acredito. Tambm estou muito, muito feliz, aqui. Mas chegar o dia em que voc ter que... voltar.
        O duque sabia que Salena estava preocupada com o que aconteceria a ela, quando esse momento chegasse.
        - Vamos deixar isso para a ocasio oportuna. No momento presente, no posso pensar em lugar mais bonito nem mais agradvel do que Marrocos, nesta poca do 
ano.
        Percebeu que suas palavras a tranqilizaram.
        - Ento, j que vamos ficar, posso sair a cavalo com voc hoje  tarde ou amanh cedo?
        Ele ia responder, quando um criado entrou na sala.
        - Que houve? - perguntou, impaciente.
        - Est a uma senhora que quer v-lo, patro. Diz que  muito importante.
        - Uma senhora?
        - A mesma que veio anteontem. Parece muito agitada.
        O duque fechou a cara. Tinha dado ordem para no ser perturbado se viesse alguma visita, fosse quem fosse, e que sob nenhum pretexto a visita deveria ser 
levada  saleta sem ser anunciada. Sabia, entretanto, que se Imogen quisesse v-lo, insistiria tanto que os criados acabariam vencidos.
        Antes de levantar, colocou a mo no ombro de Salena.
        - No me demoro e vou dar ordem para que preparem os cavalos para hoje  tarde, assim que refrescar um pouco.
        - Ser maravilhoso!
        Mas uma sombra havia toldado de novo o olhar da moa.
        Assim que se viu sozinha, ela levantou. Estava perturbada e sentia uma dor no corao. Por que seria que a bela lady Moreton tinha voltado? Que queria com 
ele? Se estava to interessada em v-lo, por que no lhe pediu que fosse visit-la?
        Eram perguntas para as quais no tinha resposta. Atravessou a porta-janela e foi para o jardim. Mas, pela primeira vez, a beleza do lugar no despertou entusiasmo 
em Salena.
        Ela pensava apenas num rosto bonito virado para o duque com expresso de splica, e sabia que, em contraste com a sofisticao e a elegncia da outra, ela 
devia parecer sem graa e caipira.
        No podendo ficar sossegada, foi at o fim do terrao para olhar, no para o mar, e sim para as montanhas que se erguiam azuis e arroxeadas contra o cu. 
Eram maravilhosamente imponentes, mas Salena mal reparava nelas. Sua agitao e sua dor pareciam crescer a cada momento.
        De repente, ouviu um som no jardim. No foi alto, mais parecendo o grito de um animal ferido. Ficou a escuta, imaginando o que poderia ser. E, ento, o som 
se repetiu vrias vezes. Localizou-o como vindo de uma das moitas floridas a alguns metros do terrao. Deve ser algum animal preso numa armadilha, pensou. Olhou 
 volta,  procura de um jardineiro e, no vendo nenhum, desceu correndo a escada do terrao e atravessou o gramado em direo s moitas.
        O animal ainda gemia. Ento, quando afastou os galhos, sentindo o perfume das flores, Salena gritou.
        Um pano preto foi atirado sobre sua cabea, cobrindo-a completamente, e ela foi agarrada por braos fortes e levada embora.
        Depois do primeiro grito, ficou quieta, abafada pelo pano grosso que lhe cobria a cabea.
        Tentou lutar, mas parecia estar presa por laos de ferro. Somente dali a segundos foi que compreendeu que eram os braos dos homens que a carregavam.
        Fazendo um esforo, achando quase impossvel respirar, tentou de novo gritar, mas sem resultado.
        Percebeu tambm que no conseguia mover os braos e que seus tornozelos estavam seguros por dedos firmes e fortes.
        Foi carregada dali, procurando desesperadamente adivinhar o que estava acontecendo e continuar respirando.
        Achou que poderia desmaiar, no apenas porque era difcil respirar, mas porque os braos que a prendiam fortemente a machucavam.
        Ento, ouviu uma balbrdia de vozes rabes e foi colocada no cho. Mas, antes que tentasse se mover, uma corda foi passada em volta de seus pulsos e outra 
nas pernas.
        Foi agarrada novamente e dessa vez percebeu, com surpresa, que a colocavam numa cadeira. Sentiu que a prendiam  cadeira com mais cordas. Algum estava dando 
ordens. Balanando-se para a frente e para trs, ela compreendeu, atnita, que estava em cima de um camelo.
        Pelos sons que ouvia, havia outros animais, como numa caravana. Mal podia acreditar que momentos antes estava em segurana na vila, com o duque a seu lado. 
Agora era levada para longe, e ficou desesperada ao pensar que ele nunca saberia para onde.
        Tentou gritar. Mas o som se perdeu nas dobras do pano que lhe cobria a cabea e a impedia de ver. Ocorreu-lhe, ento, que estava sendo raptada por causa 
de um resgate. Lembrou que, certa noite, ao jantar, o duque falou de europeus que tinham casas bonitas nos pontos mais altos, nas vizinhanas de Tnger.
        
        - Um deles, um homem rico, foi seqestrado h mais ou menos um ano pelos berberes mouros.
        - Que horror! Ele conseguiu fugir?
        - Foi libertado depois que os bandidos conseguiram algumas concesses do governo mouro.
        - Foi ferido?
        - No. Parece que o trataram muito bem. Mas, como os rapazes conseguiram o que queriam, os outros residentes ficaram nervosos e temeram pela prpria segurana.
        O duque sorriu, porque os pensamentos de Salena tinham sido para ele e no, como teria acontecido com outros hspedes, para a prpria segurana.
        - Posso garantir que no s o sr. Warren escolheu empregados de confiana, mas que, quando meu iate est na baa, parte da tripulao cuida de minha segurana. 
No precisa se preocupar comigo, nem ter medo. Eu no teria contado o caso que contei, se soubesse que ia ficar nervosa.
        - No estou preocupada comigo mesma. Ningum pensaria em me raptar por causa de um resgate... Mas, com voc,  diferente.
        
        Por incrvel que parecesse, ela  que estava sendo raptada e ficou aborrecida ao pensar que talvez o duque tivesse que pagar uma grande quantia.
        Quanto tempo ele levaria para perceber seu desaparecimento? Sabia que ficaria zangado, no por causa do dinheiro, fosse quanto fosse, mas por ter que ceder 
diante aos bandidos e ladres, dando-lhes um incentivo para fazer novas vtimas.
        De repente, em pnico, Salena imaginou que talvez ele resolvesse dar aos bandidos uma lio, recusando-se a pagar. Horrorizada ante semelhante idia, lutou 
para se libertar das cordas que prendiam seus braos ao assento de vime.
        Estava muito fraca, as cordas eram grossas, e se sentiu mais impotente ainda.
        O camelo foi agora mais devagar, subindo um morro. Deviam estar saindo do vale, e Salena achou que, assim que se achassem no meio das rvores frondosas que 
cobriam a parte mais baixa das montanhas, seria impossvel ao duque encontr-la.
        Nada podia fazer, a no ser rezar, e suas oraes pareciam confusas, num apelo tanto a Deus como ao duque.
        - Salve-me! Salve-me!
        Repetia mentalmente essas palavras, inmeras vezes, todo o seu ser ansiando pela presena dele.
        E se eu no o vir mais?
        Teve vontade de chorar, tal o desespero que sentiu, e compreendeu, ento, que o amava!
        Amava-o de um jeito que jamais imaginou ser capaz de amar. No era apenas a entrega de seu corao, mas de todo o seu ser.
        Como fui tola, pensou. Devia ter sabido que era amor, porque s era feliz quando estava na companhia dele e porque acordava todas as manhs com a sensao 
de que algo de maravilhoso estava para acontecer.
        Mas jamais havia analisado tais sentimentos e qual o motivo que fazia com que esperasse com tanta ansiedade o momento de rever o duque.
        Eu o amo, eu o amo!
        Sabia agora que a dor que sentiu no corao, quando ele foi ao encontro de lady Moreton, era cime. Cime, porque tinha medo de perd-lo; cime, porque aquela 
mulher era mais bonita do que ela jamais poderia esperar ser.
        - Oh, Deus, faa com que ele me ame um pouco!
        Se algum dia tivesse que se separar dele, preferia morrer.
        Pensou no tempo que tinha perdido por no saber que o amava, por no demonstrar seus sentimentos e quanto significava para ela estar perto dele.
        Depois achou que isso no teria feito diferena e que o duque s estava com ela por bondade; a bondade de um homem que ajuda uma pessoa que est em dificuldade. 
Mas, obviamente, no nutria outro sentimento por ela.
        Pela primeira vez, ficou imaginando como  que pde ficar sozinha com ele na vila, sem lhe ocorrer que isto estava errado, ou, pelo menos, escandalosamente 
pouco convencional.
        Pareceu-lhe to certo que s agora ela compreendia que as outras pessoas podiam interpretar mal tal situao.
        Horrorizada, pensou que lady Moreton devia ter dito coisas horrveis a seu respeito. Talvez tivesse contado aos amigos que o duque no estava sozinho na 
vila.
        - Vo pensar que sou amante dele!
        Mas, em vez de ficar escandalizada, ou mesmo horrorizada, achou que ser amada pelo duque seria a coisa mais maravilhosa do mundo.
        Que lhe importava o nome que lhe dessem ou o que o mundo dissesse? Se o duque a quisesse, mesmo por pouco tempo, ela morreria feliz sabendo que havia provado 
os frutos do paraso e que nada mais na vida seria a mesma coisa.
        O camelo voltou a andar mais depressa, e Salena ficou imaginando se o balano no ia fazer com que enjoasse. Mas era mais provvel que sufocasse, pois estava 
com muito calor e o pano escuro colocado firmemente sobre sua cabea parecia comprimir-lhe o rosto, como se fosse uma mscara.
        Moviam-se agora silenciosamente e ela soube que caminhavam sobre areia. A idia de ser levada para um dos plats do deserto era assustador, pois l viviam 
os berberes selvagens.
        Lembrava do duque ter descrito tais lugares com a citao de um poema que ela no conhecia.
        "Um sepulcro cheio de ossos de homens mortos."
        A lembrana fez Salena estremecer.
        Talvez isso fosse acontecer com ela: seus ossos seriam deixados na areia e o sol os branquearia, at que ningum jamais pudesse dizer a quem haviam pertencido.
        J deviam ter viajado uma hora ou mais. De repente, quando se sentia sonolenta com o balano da cadeira, ouviu uma voz de comando e o camelo onde ela estava 
parou.
        Com vrios resmungos, o camelo apoiou no cho os joelhos da frente; depois, quando Salena caiu para a frente, o animal abaixou as pernas traseiras e o assento 
se endireitou.
        Salena sentiu que tiravam as cordas que a prendiam ao assento de vime. Depois, dois homens a agarraram e a levaram.
        Agora, tinha certeza de estar no deserto, pois no se ouvia rudo de passos e os homens pareciam mover-se maciamente.
        Caminharam durante algum tempo. Depois, um homem falou com os que a carregavam e ela sentiu que a abaixavam, como para passar por alguma entrada.
        Os ps de Salena estavam agora no cho. Chegara o momento de conhecer seus raptores.
        Teve medo dos rostos que provavelmente veria: maldosos, ameaadores e cruis. Rostos de homens dispostos a arriscar-se ] pena de morte para obter dinheiro.
        As cordas que a tinham prendido caram no cho e o capuz foi retirado.
        Por um momento, Salena no pde ver onde estava, pois seus olhos tinham ficado cobertos durante muito tempo e o lugar era muito mal iluminado. Depois, percebeu 
que estava numa tenda grande, cheia de tapetes e com assentos acolchoados, baixos, em estilo oriental.
        Os cabelos de Salena tinham cado sobre os olhos e ela os puxou para trs. S a conseguiu enxergar direito e viu, ento, no outro lado da tenda, sentado 
num assento baixo... o prncipe!
        Pensou que estivesse sonhando. Lentamente, o russo se endireitou. Enquanto ela o fitava, incrdula demais para pronunciar uma s palavra, ele sorriu, e no 
foi um sorriso agradvel.
        - Voc... no morreu!
        - No, no morri. E eu poderia dizer o mesmo de voc, se h dois dias no tivesse sabido que estava viva e apreciando a companhia de um nobre!
        Havia alguma coisa muito desagradvel na maneira dele falar, mas Salena no podia pensar em nada, a no ser que no era uma assassina. Mas era prisioneira 
dele novamente!
        Instintivamente, olhou em volta,  procura dos dois homens que a haviam trazido, mas eles tinham desaparecido; estava sozinha com o prncipe. Como se soubesse 
o que Salena estava pensando, o russo disse:
        - Dessa vez, tomei precaues para que voc no tivesse nenhuma arma para me atacar.
        - Eu no... no pretendia mat-lo. Mas, depois, quando pensei que o tinha matado, tentei me afogar...
        - Foi o que pensei que tivesse acontecido. Um dos criados a viu atravessando o jardim, correndo. Quando voc no voltou, todo mundo pensou que tivesse morrido 
afogada.
        - Fui salva... por um iate.
        - Foi o que fiquei sabendo. Muito cmodo ter sido um barco to luxuoso e seu salvador ser o nobre e atraente duque de Templecombe!
        - Como  que soube disso?
        - Minha informante  uma linda senhora a quem o duque pertence.
        Agora Salena compreendia. Lady Moreton tinha vindo para Tnger no iate do prncipe. Depois de v-la na vila, contou a novidade ao russo. No foi difcil 
ele tirar as concluses certas.
        - Lady Moreton descreveu voc muito bem, e achei que era mais do que justo eu reclamar aquilo por que paguei e que me pertence. Salena olhou em volta, procurando 
um meio de fugir.
        - Antes que voc se d ao trabalho de tentar escapar, deixe-me dizer-lhe que meus empregados tm ordem de impedi-la. E, tambm, de traz-la de volta imediatamente, 
caso fuja para o deserto.
        -- Eu no vou ficar aqui... com voc.
        - No tem escolha. Alm do mais, ter todo o conforto. O sulto me emprestou, ou antes, me alugou, esta tenda luxuosa, assim como os criados para cuidarem 
dela e at mesmo para arranjarem uma mulher para cuidar de voc.
        - No vou ficar aqui. Voc me enganou com um casamento falso, e no lhe devo nada. Nem mesmo gratido!
        - Eu a comprei, paguei por voc, e no permito que trapaceiem comigo; muito menos, quando se trata de uma mulher to atraente.
        Olhou-a de cima a baixo, e de novo Salena teve a sensao de que a despia. Desesperada, caiu de joelhos a seus ps.
        - Por favor, deixe-me ir embora! Deve compreender que no quero ser sua amante. H muitas mulheres que... ficariam gratas pelo que voc lhes desse... e que 
o amariam, tambm.
        O prncipe sorriu, e seu rosto pareceu ainda mais diablico.
        - Gosto de v-la de joelhos, Salena, e  assim que deve ficar, depois da maneira como me tratou.
        - Eu lhe disse que no pretendia... feri-lo. Muito menos, mat-lo. Apenas... aconteceu.
        - Foi uma infelicidade. Mas h mdicos muito competentes em Monte Carlo, que trataram de mim, de modo que ainda sou perfeitamente capaz de fazer com que 
voc seja minha. E  o que pretendo fazer.
        - No!
        Salena levantou e correu para o lado da tenda por onde sabia que tinha entrado. Afastou a cortina. Do lado de fora havia dois criados de turbante, usando 
cales enormes, brancos, com boleros vermelhos, sem manga. Eram altos, de pele escura, com feies que indicavam que eram berberes, e Salena achou que havia algo 
de ameaador na maneira como a olharam. Gritou e largou a cortina. Ouviu o prncipe dar uma risada.
        - V, minha pombinha, que no h fuga possvel. De modo que  melhor nos divertirmos. No existe nada mais propcio ao romance do que a vastido do deserto 
e um homem disposto a ensin-la a amar.
        - O que me oferece no  amor.  errado e maldoso. Deixe-me ir que prometo devolver o dinheiro que deu a meu pai.
        Pela expresso do prncipe, viu que estava achando suas splicas muito divertidas. Mas no desistiu.
        - Se insistir em me prender aqui, juro que tentarei mat-lo.
        - Com o qu?
        Com um gesto, indicou a tenda vazia, a no ser pelos assentos cheios de almofadas, a mesa de cobre, baixa, e os ricos tapetes que cobriam o cho.
        Salena apertou as mos, sabendo que o homem zombava dela e que, de uma maneira perversa, achava divertido ver que estava com medo.
        - Voc v, minha pombinha, que a gaiola funciona - disse ele, com o tom adocicado que ela detestava. - Mas acho que deve estar encalorada e cansada, depois 
da viagem. Vou permitir que tome banho e troque de roupa. Depois, conversaremos de novo. Tenho muita coisa para lhe dizer.
        Bateu palmas; atrs dele, uma cortina foi afastada e apareceu uma nativa.
        S o fato de escapar da presena do prncipe por alguns momentos era um alvio, de modo que Salena se dirigiu para a mulher. Mas ele disse, em tom divertido:
        - Caso pretenda suborn-la, ela  surda-muda. Muito til, em certas ocasies, como me disse o sulto.
        - Surda-muda! Aquilo tornava a priso ainda mais assustadora e desagradvel.
        No podendo fazer nada, ela passou pela entrada, enquanto a mulher segurava a cortina.
        Viu-se numa tenda pequena, anexa  outra. Era o tipo de tenda, tinha certeza, usada pelo sulto e por importantes lderes rabes quando viajavam com uma 
caravana grande. Era carregada no lombo dos animais e armada num osis, ou onde eles desejassem ficar. Quanto maior e mais luxuosa, mais importante era o seu ocupante.
        A tenda onde Salena se viu tinha o cho coberto de tapetes. Havia um div cheio de almofadas e uma banheira de lato cheia de gua perfumada de jasmim.
        Estava com tanto calor que deixou que a surda-muda a despisse, notando que a mulher, obviamente, tinha prtica.
        Na gua fresca, Salena ficou pensando, desesperadamente, numa maneira de fugir. O prncipe tinha inmeros criados; alm do mais, no sabia de que lado ficava 
Tnger e nem mesmo se havia um lugar onde pudesse se esconder, caso conseguisse sair da tenda.
        Tenho que planejar! Tenho que encontrar um meio!, pensou.
        De novo, seus pensamentos voltaram ao duque, e ficou rezando para que ele a socorresse. Mas no tinha idia de como isso seria possvel.
        
        A mulher entregou-lhe uma toalha, mas, quando procurou suas roupas, no as viu. Por mmica, explicou o que queria. Como resposta, a criada pegou o que lhe 
pareceu uma poro de echarpes de gaze.
        Olhando melhor, Salena percebeu, horrorizada, que era de fato um traje nativo. Por um momento, mal pde acreditar que era aquilo que o prncipe pretendia 
que ela usasse!
        Depois, achou que isso era bem dele! Dar-lhe roupas exticas e sensuais. Tentou explicar  mulher que queria o vestido com o qual tinha viajado, mas a surda-muda 
apontava teimosamente para aquele monte de panos transparentes.
        Salena estava num dilema: ou ia ao encontro do prncipe enrolada numa toalha, ou tinha que usar o traje nativo.
        Cerrando os dentes e percebendo que no havia outro jeito, deixou que a mulher a enrolasse nos vus difanos e macios, pois no passavam disso, semelhantes 
aos que as muulmanas usavam num harm.
        Os vus escondiam o corpo, mas havia algo to sedutor no efeito de luz e no colorido suave, que Salena soube, com um estremecimento, que era isso mesmo que 
o prncipe queria.
        Havia tambm babouches - chinelos - bordados, colares, brincos, braceletes e um vu para a cabea, com uma franja de prolas.
        Depois que Salena estava vestida, a mulher trouxe um espelho para que se admirasse, mas s o que viu foram seus olhos amedrontados e seus lbios trmulos.
        - Que  que posso fazer? - perguntou ao reflexo no espelho. - Que  que posso fazer?
        Com uma coragem que estava longe de sentir, passou pela porta onde a mulher segurava a cortina e entrou na tenda do prncipe.
        Ele estava reclinado no div, com um traje marroquino, o serwal; cala muito solta nos quadris, com as pernas presas nos tornozelos. Usava uma camisa aberta 
no pescoo, o que fazia com que parecesse velho, pois no escondia a papada e os msculos como parecera em Monte Carlo.
         sua frente, havia uma mesa com os doces que os marroquinos invariavelmente comeam ou terminam uma refeio.
        Salena viu que ele tomava vinho, o que era contra a religio muulmana, compreendendo que ele ditava as prprias regras e no se importava com as crenas 
de seu amigo, o sulto.
        - Venha c, minha pombinha. Estou esperando por voc com impacincia. Deixe-me v-la com essa encantadora roupa que escolhi para voc.
        - No tinha o direito de esconder o meu vestido!
        Achou que, em vez de indicar clera, sua voz soou fraca e desamparada e sentiu que j se transformava na mulher submissa que ele queria que fosse.
        - Venha tomar um pouco de vinho.
        Fez um gesto e o criado de p a seu lado encheu o copo de Salena, que se sentou numa almofada, no outro lado da mesa.
        - Agora, posso admir-la. Ainda  a mulher mais bonita e mais desejvel que jamais vi! Como  que pde pensar, por um momento sequer, que eu a esqueceria?
        Salena no respondeu. Como se sentia fraca e desanimada, tomou um pouco de vinho e comeu alguma coisa.
        - Foi isso que planejei e era por isso que estava esperando - disse o prncipe.
        - Acha que o duque vai aceitar meu desaparecimento? Acha que no vai me procurar e fazer perguntas?
        Sentiu que o vinho lhe dava coragem e falou em tom alto e firme.
        - Acho que voc exagera sua atrao. Como j lhe disse, o duque pertence a Imogen Moreton. Nos braos dessa bela mulher, logo esquecer a coitadinha que 
ele pescou no mar.
        Se o russo a tivesse apunhalado no teria feito com que a dor fosse maior. Salena tinha certeza de que lady Moreton agora diria ao duque, no apenas quem 
era seu pai, mas o quanto o prncipe a desejava, de modo que ele no se sentisse mais na obrigao de cuidar dela.
        Parecendo ler seus pensamentos, o russo disse:
        - No permitirei que voc me seja infiel, nem mesmo em pensamento. Voc me pertence, Salena; quanto mais depressa aceitar isso, melhor!  minha e, depois 
desta noite, no haver fuga possvel. Duvido que at mesmo o duque queira saber de voc, depois que seu corpo me pertencer.
        - Prefiro morrer!
        - Ser que preciso lhe dar uma surra, como antes, para que me obedea?
        Havia agora em seu rosto uma expresso sdica, que fez com que Salena se contrasse. O homem notou como estava amedrontada e deu uma risada.
        - Precisa aprender a obedecer, minha florzinha. Precisa aprender a ser submissa.
        No adiantava discutir, no adiantava desafi-lo. S o que podia fazer era encontrar um jeito de morrer, antes que ele cumprisse as ameaas. No havia outra 
maneira de impedi-lo...
        O criado trouxe a comida. Harera era uma sopa de carneiro, fgado de galinha, ervilhas e vrios outros ingredientes. Salena sabia que era alimento conhecido 
como restaurador das foras e ficou assustada ao adivinhar por que motivo o prncipe o escolhera.
        Havia outros pratos, que comeram  moda oriental, com os dedos. Foi uma longa refeio. Ele tomou bastante vinho e, quanto mais bebia, mais seus olhos ardiam 
de paixo. Parecia um animal selvagem pronto a pular sobre ela e a devor-la.
        Salena comeu apenas um pouquinho de cada prato, forando-se a isso para ter nimo para resistir.
        Terminando o jantar, os criados levaram no s os pratos e os copos, mas tambm a mesinha. Agora, entre o prncipe e Salena apenas alguns metros de tapete.
        - Venha c!
        Era uma ordem e ela soube que no deveria mais lutar e, sim, se matar. Mas como? Sentiu que a armadilha em que havia cado se fechava cada vez mais. As paredes 
da tenda pareciam chegar mais perto e os olhos do prncipe davam impresso de maiores.
        Achou que ele a estava hipnotizando e desviou o olhar.
        Queria falar, suplicar mais uma vez, mas seus lbios estavam secos e as palavras no saam.
        - Dei-lhe uma ordem. Venha c, Salena!
        Ela no conseguia se mover. O prncipe levantou, ameaador.
        - Ser que vai ser preciso eu fazer com que me obedea? - Agora havia na voz dele uma nota que indicava que estava excitado com o desafio.
        Salena levantou. Ento, viu que ele tinha um chicote na mo. E ela gritou.
        
        O duque atravessou os corredores que levavam a uma salinha perto da entrada, onde, por ordem sua, deviam esperar as pessoas que o procurassem.
        Encontrou ali Imogen, como esperara, muito bonita e usando um vestido que ele achou que tinha sido escolhido especialmente para atra-lo.
        - Voc queria falar comigo?
        - Sim, Hugo.  importante.
        - Que aconteceu?
        - Quando fui buscar minhas jias no Afrodite, vi que estavam faltando algumas peas.
        - Isso  impossvel! Estavam aos cuidados de Dalton, e voc sabe muito bem que ele no s  incapaz de tirar qualquer coisa, como no permitiria que outros 
fizessem isso.
        - Pois no consigo encontrar a esmeralda que voc me deu, e sabe, meu caro Hugo, o quanto dou valor a ela.
        -  melhor procurar de novo.
        - Voc me deu a esmeralda na noite seguinte quela em que fizemos amor pela primeira vez - disse ela, em tom saudoso. - Querido Hugo, foi maravilhoso e ficamos 
to felizes!
        - J lhe agradeci a felicidade que me proporcionou - disse o duque, friamente. - Acho embaraoso e desnecessrio discutirmos detalhes ntimos do passado, 
Imogen.
        - Mas eu quero fazer isso. Quero relembrar tudo que me disse e tudo que fizemos. - Deu um suspiro profundo. - Voc me ensinou a amar apaixonadamente e nunca, 
nunca haver outro homem em minha vida.
        O duque teve um sorriso ctico.
        - No pode esperar que eu acredite nisso, Imogen. No fiz nenhuma pergunta, mas no posso acreditar que voc tenha vindo para Tnger num navio, com um bando 
de turistas.
        - No. Vim com o prncipe Serge Petrovsky. - Notou a expresso dele e acrescentou, rapidamente: - No  o que est pensando. Ele estava doente. Uma mulher 
o esfaqueou e, mesmo que ele quisesse ser meu amante, no teria sido possvel.
        O duque ficou imvel.
        - Voc disse que uma mulher o esfaqueou?
        - Uma jovem pela qual estava apaixonado. Mas no vim aqui para discutir o prncipe; vim para falar de ns dois, Hugo.
        - Mesmo assim, estou interessado. Quem era a moa?
        - No lembro o nome. Quero falar sobre o meu anel de esmeralda, Hugo. Por favor, ajude-me a encontr-lo. Vamos at o iate, agora, para ver o que pode ter 
acontecido.
        - Se estiver l, Dalton o encontrar. Mas no posso deixar de pensar, Imogen, que no foi esse o motivo de voc vir me procurar.
        Imogen arregalou os olhos azuis.
        - A verdade  que eu queria v-lo, Hugo. Teria inventado qualquer desculpa para podermos ser felizes como fomos antes de voc sair de Monte Carlo. No pode 
estar zangado comigo, s porque Boris me beijou!
        - No tenho vontade de discutir isto, Imogen. Volte para o seu prncipe e diga-lhe...
        A porta se abriu e ele foi interrompido pela chegada do sr. Warren.
        - Desculpe, Vossa Graa, mas tenho uma coisa urgente para lhe dizer.
        O duque olhou para Imogen, mas ela sentou numa cadeira.
        - Vou esperar. No tenho pressa - disse, docemente.
        Ele hesitou, como se quisesse mand-la embora. Depois saiu da sala, seguido pelo sr. Warren.
        - Que aconteceu?
        - Trata-se da srta. Salena.
        - O que aconteceu com ela?
        - Creio que foi raptada!
        O duque fitou o empregado, incrdulo.
        - Um dos criados disse que a viu sendo carregada por quatro homens. Eles jogaram um pano sobre a cabea dela, no jardim, e a levaram embora. O rapaz ficou 
amedrontado demais para fazer qualquer coisa, mas veio me procurar imediatamente.
        - H quanto tempo isso aconteceu?
        - Dez minutos, ou talvez um quarto de hora. Eu no estava em minha casa, e sim nas cocheiras, de modo que o rapaz levou alguns minutos para me encontrar. 
- Fez uma pausa e acrescentou: - Receio que seja para obter resgate, Vossa Graa.
        - No creio sr. Warren. - Refletiu durante alguns segundos. - V numa carruagem at o iate, o mais depressa possvel, e traga o capito e todos os homens 
que souberem andar a cavalo. Diga ao capito Barnett que devem vir armados de rifles.
        O sr. Warren ficou admirado, mas trabalhava h muito tempo com o duque para discutir suas ordens.
        - Mande selar todos os cavalos das cocheiras. - Sem esperar pela resposta do empregado, voltou para a saleta onde Imogen estava.
        - Que aconteceu? Por que est com essa cara, Hugo?
        - Quero a verdade e quero j! Voc falou a Petrovsky sobre a moa que est hospedada aqui?
        - E se tiver falado? No h nada de mal nisso.
        - E ento, ele lhe disse que ela era a moa que o tinha esfaqueado e que acreditava morta, no ?
        Pensou, por um momento, que ela fosse negar. Depois, encolhendo os ombros, Imogen disse:
        - E se ele tiver dito isto? No me preocupo com os seus flertes, Hugo, como voc no precisa se preocupar com os meus.
        - Para onde Petrovsky a levou?
        A pergunta do duque foi como um tiro de pistola.
        - No tenho a mnima idia do que voc est falando, Hugo. Mas ele sabia, pela expresso de Imogen, que ela estava mentindo.


CAPTULO VII


         medida que o prncipe chegava cada vez mais perto, Salena tinha a impresso de que ela era um animal acuado.
        Sentia-se como se no pudesse se mover, nem pensar; apenas se encolher contra as dobras das paredes da tenda.
        Queria morrer. Queria ficar inconsciente, para no sentir a dor do que era inevitvel.
        Depois, ele a alcanou, com uma expresso de triunfo e de excitao. Quando ergueu o brao, Salena gritou.
        Foi um grito dbil, grito de algum que no tinha mais foras para lutar, que estava completamente derrotado. Mas sua voz foi abafada por outras vozes. O 
prncipe olhou para trs, admirado com a interrupo.
        As dobras da cortina foram afastadas e o duque entrou na tenda, seguido pelo capito Barnett e vrios marinheiros ingleses armados de rifles.
        Por um momento, tanto Salena quanto o russo ficaram imveis. Ele ainda estava com o brao levantado, tendo no rosto uma ridcula expresso de espanto.
        Salena deu outro grito, dessa vez, de alvio e de imensa alegria, e correu para o duque. Atirou-se nos braos dele beijando-lhe o rosto.
        - Est tudo bem, querida. Voc est salva!
        Sem olhar para o prncipe, ergueu-a nos braos. Ao passar pelo capito Barnett, disse:
        - Este cavalheiro  seu, capito.
        Passaram por dois marinheiros que mantinham dois criados de turbantes sob a mira de seus rifles, e Salena escondeu o rosto no ombro do duque. Tentava se 
convencer de que no precisava mais ter medo: estava salva e o duque a apertava contra o peito.
        Percebeu que ele caminhava sobre areia e sentiu no rosto o ar fresco, mas s abriu os olhos dali a pouco, quando parou.
        Olhou para ele e viu atrs de sua cabea os galhos das tamareiras do deserto.
        - Voc est salva, minha querida. Ele no a machucou?
        - Eu... rezei... rezei para voc... aparecer... e me salvar.
        - Achei que era isso que voc estava fazendo.
        Colocou-a no cho, mas continuou segurando-a. Quando Salena ergueu o rosto para ele, beijou-a na boca.
        Ao sentir os lbios do homem amado, Salena soube que era aquilo que tinha desejado, era por aquilo que havia rezado. O que sentia agora era xtase.
        Apertou o corpo contra o dele, para se sentir segura para sempre.
        Alguma coisa maravilhosa estava acontecendo, completamente diferente de tudo que j havia sentido, tomando conta de seu corpo, subindo-lhe pelos seios e 
pela garganta.
        A princpio, os lbios de Salena eram macios, suaves e inocentes; mas, quando a viu estremecer e corresponder ao calor de seus beijos, o duque apertou-a 
ainda com mais fora.
        Salena esqueceu seus temores. Tudo desapareceu e o duque agora lhe dava o que havia de mais belo e de mais perfeito no mundo.
        Era como se uma msica os envolvesse, e havia o perfume das flores, e os dois no eram mais seres humanos, e sim, parte da divindade.
        Quando se afastou um pouco para olhar para o rosto de Salena, o duque achou que jamais tinha visto uma mulher to feliz, to radiosa, em toda a sua vida.
        - Eu o amo! Eu o amo!
        - Era isso que h muito tempo eu queria ouvir de voc, minha querida. Tive um medo terrvel de no chegar a tempo de salv-la daquele bruto.
        - Ele ia me bater...
        Ao dizer isso, percebeu que o prncipe no tinha mais o poder de aterroriz-la. Seu medo havia desaparecido porque o duque a segurava nos braos e a beijava.
        - Vamos para casa, doura.
        Beijou-a novamente, sentindo-a estremecer, mas no de medo.
        Andaram de mos dadas. S ento Salena viu que estavam num osis, debaixo de palmeiras, sozinhos, a no ser por alguns camelos deitados na sombra.
        Olhou para o lado de onde tinham vindo, para a tenda, grande e negra. Do lado de fora estavam alguns cavalos seguros pelas rdeas por marinheiros de uniforme 
branco.
        De novo, olhou para o duque.
        Era-lhe impossvel pensar em outra coisa, a no ser nele, e Hugo viu, com imenso alvio, que nos olhos dela no havia mais medo. Pelo contrrio, pareciam 
refletir a luz do sol... Percebeu, ento, que entardecia e examinou ansiosamente, o oeste.
        - Precisamos voltar logo. Sente-se bastante forte para andar a cavalo, meu amor? Seria mais rpido, assim.
        Sorriu e, antes que ela respondesse, continuou:
        - Eu tinha prometido que andaramos a cavalo, juntos, hoje. Ela deu uma risadinha e encostou o rosto no ombro do duque. Carregou-a de novo no colo para que 
os chinelos bordados de
        Salena no se enchessem de areia.
        Esperou que a ajudasse a montar, mas ele pareceu indeciso. A moa fitou-o, com ar indagador, e viu que o duque olhava para suas roupas difanas, que revelavam 
as curvas dos seios.
        Pela primeira vez, ela teve conscincia de seus trajes e ficou encabulada.
        O duque deu uma ordem a um dos marinheiros e este saiu correndo.
        - Voc est linda, mas no quero que ningum, a no ser eu, veja a sua beleza.
        Salena corou.
        O marinheiro apareceu com qualquer coisa nas mos.
        - Isto serve, Vossa Graa?
        Salena viu que era um pano lindamente bordado, do tipo que no Oriente  jogado sobre divas, ou, quando antigos e valiosos, pendurados nas paredes.
        O duque colocou o pano sobre os ombros dela, cruzou-o na frente, e amarrou as pontas atrs, na cintura.
        Salena achou que devia estar parecendo muito estranha, com um difano vestido mouro, uma tira na cabea com franjas de prolas e pulseiras reluzentes nos 
braos.
        Mas nada tinha importncia, a no ser o fato de estar com o duque e de ter sido beijada por ele.
        O capito Barnett saiu da tenda, seguido por alguns marinheiros.
        - Sua Alteza achar mais confortvel se deitar de bruos nos prximos dias, Vossa Graa!
        Salena no ouviu nem tentou compreender o que estava sendo dito. S tinha olhos para o duque, achando-o muito atraente e pensando em seu grande amor.
        Ele veio a mim quando o chamei, pensou. Ele me salvou. E me ama, como rezei para que amasse.
        O duque montou a cavalo e todos partiram.
        Salena notou que ele andava devagar, at perceber que ela era uma boa amazona, e depois apressou a marcha.
        Logo deixaram o deserto para trs e seguiram pelo sop das montanhas. Logo Salena avistou o mar e viu que a vila do duque estava prxima.
        
        Quando chegaram aos arredores de Tnger, o sol se punha e as sombras da noite se aproximavam rapidamente.
        Estamos em casa!, pensou Salena.
        Mas viu, com surpresa, que o duque no se dirigia para a vila e, sim, para a cidade.
        Cavalgaram depressa demais para ela fazer perguntas. Logo estavam passando por ruas estreitas, sujas, cheias de camelos, burros e mendigos, indo em direo 
 baa. S a, Salena compreendeu que se dirigiam para o Afrodite. Com grande alegria no corao, viu que no s estavam deixando o prncipe para trs, como tambm 
lady Moreton, e que ia ficar sozinha com o duque. O que mais desejava na vida era que ele a tomasse nos braos e a beijasse novamente. Seria maravilhoso saber que 
estavam no mar e que no havia perigo de serem interrompidos.
        Os cascos dos cavalos ressoavam no calamento de pedra do cais, quando se dirigiam para o ponto onde estava ancorado o Afrodite. O sr. Warren esperava por 
eles.
        O duque apeou e ajudou-a a desmontar. Sentiu um estremecimento de prazer, porque ele a tocava. Os olhos de ambos se encontraram, e o duque a colocou no cho 
com relutncia.
        - Tudo est a bordo, Vossa Graa.
        - Obrigado, Warren. - Estendeu a mo, em despedida, e acrescentou: - Cuide de tudo, at voltarmos.
        - Pode ter certeza disso, Vossa Graa.
        Com um brao em volta da cintura de Salena, o duque levou-a para bordo e depois para o salo.
        Fechou a porta. Sem pensar em nada, a no ser na necessidade que tinha do homem amado, Salena virou-se, atirou-se nos braos dele e ergueu os lbios.
        O duque olhou-a por um momento e disse:
        - Quero lhe pedir uma coisa, querida. Voc est segura e no precisa ter medo de tornar a ver o prncipe. Mas estar ainda mais segura se me pertencer.
        Salena olhou-o, com um ar indagador. Ele sorriu, percebendo que ela no tinha compreendido.
        - Estou pedindo para casar comigo, minha querida. Agora... imediatamente!
        Achou que a expresso dela, iluminando-lhe os olhos, era a coisa mais linda do mundo.
        - Quero ser sua mulher mais do que qualquer outra coisa no mundo. Mas no estou  sua altura. E tenho medo de que me ache montona...
        O duque apertou-a contra o peito e beijou-lhe os cabelos.
        - Voc  a pessoa mais importante no mundo para mim e eu a amo, criatura adorvel, como jamais amei algum. Isso  a pura verdade e eu o provarei quando 
voc for minha esposa.
        - Tem certeza? Tem mesmo?
        - Absoluta certeza! E agora, rainha querida, espere aqui por alguns minutos, at eu tomar certas providncias.
        Beijou-a suavemente e, antes que pudesse dizer alguma coisa, saiu do salo, fechando a porta.
        S depois que se viu sozinha, Salena ficou pensando em sua aparncia e se o duque podia realmente ach-la bonita. Havia um espelho numa das paredes do salo 
e ela foi at l, vendo que seus olhos brilhavam e que seus lbios estavam vermelhos dos beijos.
        Os cabelos, graas  tira na cabea, no estavam em desordem, mas Salena tirou a fita porque ela lhe lembrava o prncipe. Ajeitou os cabelos e tirou tambm 
os colares, pensando que o duque no gostaria de v-la com jias dadas por outro homem.
        Ouviu o barulho das mquinas e o iate comeou a se mover; estavam saindo da baa.
        Tinha conseguido escapar! O duque a salvara no ltimo momento e a amava! No imaginava que isso fosse possvel, mas seus olhos e seus anseios haviam se realizado.
        A porta abriu-se e o duque apareceu, seguido pelo capito. Aproximou-se dela e segurou-lhe a mo.
        -  perfeitamente legal, minha querida, um casamento a bordo de um navio ao largo ser celebrado pelo capito.
        Salena teve um sorriso radioso. Sabia por que motivo ele estava explicando que era legal: queria deixar claro que o casamento no seria uma farsa, como o 
que o prncipe tentou lhe impor.
        No sabia o que dizer e apertou a mo do duque.
        Ele compreendeu e, por um momento, ficaram olhando um para o outro.
        Salena sentiu como se no s ele a estivesse beijando, mas tambm como se fizessem parte um do outro, e nunca, nunca mais fosse ficar sozinha ou amedrontada...
        
        O Afrodite navegava lentamente. Salena sabia, pelo que o duque lhe dissera, que naquela noite avanariam pouco e que, portanto, o barco jogaria o mnimo 
possvel.
        Virou a cabea que descansava no ombro dele e, embora estivesse escuro na cabine, percebeu que estava acordado.
        - Eu... dormi - disse, sonolenta.
        - Devia estar muito cansada, meu amor. Passou por muita coisa, ontem, e talvez eu tenha sido egosta por exigir ainda mais de voc.
        Aconchegou-se mais perto do marido e beijou-o.
        - Foi maravilhoso! Nunca pensei que o amor pudesse ser to maravilhoso... to divino!
        - Fiz voc feliz?
        - No tenho palavras para dizer quanto. Eu o amo e gostaria de repetir isso o tempo todo.
        Havia na voz dela uma nota apaixonada que comoveu o duque.
        - Rezei para que isso acontecesse, minha amada.
        - E rezei para que voc me amasse apenas... um pouquinho. Mas voc  to formidvel, to inteligente, to corajoso...  tudo que um homem deveria ser, e 
pensei que minhas preces no seriam ouvidas.
        - No a amo s um pouquinho. Meu amor  infinito, como o cu e o mar.
        Salena respirou fundo.
        - Voc vai me ensinar... para que eu possa conservar o seu amor?
        - Acho que no precisa ter medo de perd-lo.  diferente de tudo que at agora conheci ou senti. Quando comecei a am-la, Salena, logo depois de voc vir 
para bordo, temi que fosse sentir medo dos homens e do amor a vida inteira.
        - Foi tolice minha no perceber que voc era diferente. Ou que, quando eu sentava a seus ps, adorando-o, era amor. - Fez uma pausa. Depois, em tom hesitante: 
- Foi s quando lady...
        O duque ps um dedo nos lbios dela.
        - Esquea. Esquea tudo que aconteceu. Essas pessoas no tm importncia para ns. S o futuro nos interessa.
        Salena suspirou e aconchegou-se ainda mais a ele.
        - Tem razo. No falaremos mais nisso. Mas h uma coisa que quero saber, porque estou... curiosa.
        - O qu?
        - Como soube onde me encontrar? Eu tinha medo de que, uma vez que chegasse s montanhas, voc no pudesse ter uma idia de para onde tinham me levado.
        - Isso poderia ter acontecido, se no tivesse arrancado a informao de algum que sabia para onde voc tinha sido levada.
        Por um momento, a voz dele se tornou spera, quando lembrou que quase tinha esganado Imogen para obrig-la a contar para onde tinha ido o prncipe.
        Teve tambm sorte porque um de seus criados na vila havia sido empregado do sulto, tempos antes. No se julgando com obrigao de ser leal a um patro injusto, 
o homem guiou o duque e seus marinheiros at o ponto onde sabia que o sulto costumava erguer sua tenda, na primeira parada, depois que saa de Tnger.
        Sem esse auxlio providencial, o duque sabia que teria sido difcil, seno impossvel, encontrar Salena entre osis e palmeiras... Agora, estava decidido 
a fazer com que o passado ficasse enterrado e s se preocupassem com o futuro.
        - Warren ps em malas todas as nossas roupas e trouxe-as para bordo, querida. Vamos parar em vrios portos, para que eu possa comprar as coisas que sempre 
desejei lhe dar, mas que voc tinha escrpulo de aceitar.
        - Eu no queria ser extravagante e deixar que voc gastasse dinheiro comigo, pois sabia que nunca poderia pagar minhas dvidas.
        O duque riu baixinho, lembrando que ela havia protestado, em Gibraltar, quando quis lhe dar mais do que o essencial.
        Em Tnger, Salena insistiu para que ele comprasse tecidos baratos, que seriam confeccionados por costureiras locais.
        O duque compreendeu que isso tinha a ver com o que acontecera entre ela e o prncipe e que Salena temia ficar em dbito com ele. No insistiu, portanto, 
mas gostaria de dar  beleza de Salena a moldura que merecia.
        - Agora, no s posso lhe dar roupas, como tambm jias. Quando chegarmos a Constantinopla, comprarei prolas magnficas e tambm outras jias.
        -  para l que vamos?
        -  conhecida como A Prola do Oriente. E voc,  minha Prola do Ocidente, to bela e to preciosa que no precisa de adorno; apenas, de meus beijos.
        Beijou-a na testa e depois seus lbios roaram as sobrancelhas delicadas...
        Salena experimentou uma sensao maravilhosa. Quando ele lhe beijou os olhos, a ponta do nariz, seus lbios estavam prontos para receber os dele. Mas o duque 
beijou-lhe o queixo, as faces e os cantos da boca.
        Salena sentiu um imenso calor percorrer seu corpo. Todo ele parecia estremecer contra o do marido, e ansiava pelo amor daquele homem, de uma maneira que 
no sabia expressar.
        Essa necessidade crescia cada vez mais, e Salena tambm o beijou, apaixonadamente.
        - Quero voc, quero voc, minha amada. Minha querida, minha linda e adorvel fugitiva do amor.
        A voz parecia vir de muito longe e Salena teve a impresso de estar no cu.
        Era uma coisa maravilhosa que ela sabia ser amor, mas muito maior, mais gloriosa do que qualquer coisa que pudesse ter imaginado.
        - Tambm quero voc... Preciso de voc. Quero ser sua... sua... completamente sua.
        Mas no conseguiu falar porque o duque a beijava na boca, enquanto lhe acariciava o corpo.
        Depois, foi impossvel pensar. S existiam os lbios do bem-amado, suas mos, o bater de seu corao e apenas ele, ele, em todo o Universo.




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